A Usina Hidrelétrica de Belo Monte completa nesta terça-feira, dia 5, uma década de operação oficial sob um rastro de críticas e transformações profundas nas comunidades do Rio Xingu, no Pará. O projeto, idealizado ainda na década de 1970, consolidou-se como um dos maiores marcos energéticos do Brasil, mas deixou um legado de desestruturação para famílias ribeirinhas e pescadores que viviam da fartura das águas.
Mudanças no modo de vida
Para o pescador Élio Alves da Silva, de 70 anos, as memórias da construção são marcadas por explosões e o esvaziamento da biodiversidade local. Morador da comunidade de Santo Antônio, em Vitória do Xingu, ele recorda um tempo em que o rio oferecia variedades como tucunaré, filhote e diversas espécies ornamentais. Com o desvio de 80% do fluxo do Xingu em um trecho de 130 quilômetros, a realidade mudou drasticamente, forçando o deslocamento de 68 famílias, incluindo a de Élio, que foi realocado para uma chácara em Altamira sem assistência produtiva adequada.
O impacto na segurança alimentar também é relatado por Sara Lima, moradora de Anapu. Embora sua família não tenha precisado mudar de casa, a degradação do ecossistema fluvial eliminou a fonte de renda e a qualidade da dieta que o rio proporcionava. Segundo ela, a autossuficiência de outrora foi substituída pela dependência de itens industrializados, ilustrando a perda da autonomia econômica e alimentar dos povos que habitam o médio curso do Xingu.
Questionamentos jurídicos e climáticos
A marca de dez anos de operação foi acompanhada pela divulgação de uma carta aberta assinada por entidades como o Conselho Indigenista Missionário e o Movimento Xingu Vivo Para Sempre. O documento aponta que as secas extremas registradas nos últimos anos evidenciaram a vulnerabilidade do empreendimento. As organizações buscam, por meio de uma petição na Corte Interamericana de Direitos Humanos, que o Estado brasileiro seja responsabilizado pelos danos irreversíveis causados à região.
Erina Gomes, advogada da Associação Interamericana para a Defesa do Ambiente, sustenta que o caso de Belo Monte deve servir de lição para novos projetos de transição energética. A expectativa é que um relatório de mérito da Corte crie precedentes para evitar que o discurso de energia limpa seja utilizado para justificar violações sistemáticas de direitos humanos.
Posicionamento da concessionária
A Norte Energia, responsável pela administração da usina, reforça que o projeto é vital para a estabilidade do Sistema Interligado Nacional. A empresa afirma que a hidrelétrica supre cerca de 5% da demanda anual de eletricidade do Brasil, podendo alcançar 16% nos horários de pico. Em comunicado, a concessionária destaca o aporte de R$ 8 bilhões em compromissos socioambientais, incluindo a construção de hospitais, escolas e ações de reflorestamento.
Apesar dos dados apresentados pela Norte Energia, a população atingida mantém o ceticismo em relação à eficácia dessas medidas. Para os moradores, iniciativas pontuais ou compensações materiais não suprem a perda de um ecossistema que sustentava gerações, reafirmando que o custo social da obra permanece longe de ser reparado.
