A advogada e tradutora Cristina Tannis, de 47 anos, moradora de Santos, no litoral paulista, ilustra os desafios enfrentados por mães solo que lidam com a maternidade atípica. Mãe de três filhos, ela precisou reestruturar sua carreira profissional para acompanhar as demandas específicas de saúde e desenvolvimento de Isabela, de 13 anos, diagnosticada com Síndrome de Down e sobrevivente de uma cirurgia cardíaca complexa na infância. A rotina tornou-se ainda mais intensa com a chegada de Miguel, de 11 anos, e Manuela, de 9, ambos com diagnósticos de TDAH, sendo que o menino também apresenta autismo com altas habilidades e a filha caçula segue em investigação para o espectro autista.
Adaptação e rede de apoio
Diante das necessidades dos filhos, Cristina encerrou suas atividades em um escritório de advocacia para dedicar-se integralmente à família. Para manter a autonomia financeira, ela se especializou em costura criativa e na confecção de brinquedos educativos, produtos que inicialmente criou para estimular a primogênita e que posteriormente transformou em fonte de renda. O suporte cotidiano para essa jornada é garantido por sua mãe, de 72 anos, que atua como peça central na organização da rotina, auxiliando no transporte para terapias e na supervisão das crianças durante compromissos profissionais de Cristina.
O peso da exaustão emocional
Embora a rede de apoio ajude a mitigar o desgaste físico, especialistas apontam que o esgotamento mental é o desafio mais recorrente entre essas famílias. A psicanalista Marina Codo, que também vivencia a maternidade atípica, explica que o acúmulo de responsabilidades envolvendo diagnósticos, burocracias de laudos e o acompanhamento médico constante gera uma carga emocional exaustiva. Esse cenário é agravado pela ausência paterna, que concentra toda a responsabilidade de cuidado e gestão da vida dos filhos em uma única pessoa, tornando a jornada exaustiva e muitas vezes invisível para o restante da sociedade.
Perspectiva e superação
Apesar dos momentos de cansaço extremo que fazem parte da rotina de quem cria filhos com condições atípicas sem um parceiro, Cristina destaca a importância de manter a autoconfiança. Para a advogada, acreditar na própria capacidade de adaptação e superação é um dos pilares para enfrentar as frustrações e celebrar os ganhos diários no desenvolvimento dos filhos. O relato reforça a necessidade de um olhar mais atento da sociedade sobre as demandas dessas mulheres, que equilibram a dedicação total aos cuidados especializados com a necessidade de sobrevivência e manutenção da própria saúde mental.
