Mais de 70% dos gestores de escolas públicas brasileiras enfrentam barreiras significativas ao tentar dialogar e combater episódios de violência, como o bullying, o racismo e o capacitismo. O dado faz parte de uma pesquisa realizada pela Fundação Carlos Chagas em parceria com o Ministério da Educação, que ouviu 136 diretores de 105 instituições estaduais e municipais em dez estados do país entre março e julho de 2025.
O levantamento servirá como base para o novo Guia de Clima Escolar Positivo para Equipes Gestoras, que será lançado pelo governo federal. De acordo com o pesquisador Adriano Moro, coordenador do estudo, um dos maiores entraves é a naturalização de agressões, que muitas vezes são minimizadas como brincadeiras. Essa postura acaba gerando omissão em momentos cruciais, quando os estudantes mais necessitam de intervenção e suporte da equipe pedagógica.
Desafios na convivência escolar
A pesquisa detalha que o uso genérico do termo bullying frequentemente mascara problemas mais profundos. Ao não nomear corretamente situações de xenofobia, racismo ou preconceito de gênero, a escola perde a oportunidade de tratar a raiz da violência. Além disso, a gestão escolar se vê pressionada pela falta de integração com as famílias e a comunidade, além de lidar com um ambiente externo marcado por tensões que acabam refletindo dentro dos muros da instituição.
Os números refletem a complexidade do cenário atual. Cerca de 68% dos entrevistados relatam dificuldades em aproximar a escola das famílias, enquanto 64% enfrentam problemas na mediação de relacionamentos entre os próprios alunos. Outros 60% apontam entraves para criar o sentimento de pertencimento dos estudantes ou para fortalecer a relação entre alunos e professores, evidenciando uma fragilidade na construção de laços afetivos e sociais.
Diagnóstico e prevenção
Embora a maioria das unidades conte com uma equipe dedicada a melhorar o clima escolar, mais da metade das escolas nunca realizou um diagnóstico estruturado sobre sua realidade interna. Esse mapeamento é considerado fundamental pelos especialistas para a criação de políticas de convivência eficazes. Sem esse planejamento, as equipes acabam sobrecarregadas, atuando apenas de forma reativa diante de urgências cotidianas em vez de implementar ações preventivas.
O impacto dessas dificuldades vai além da segurança física, afetando diretamente o desempenho pedagógico. Para os pesquisadores, um ambiente de confiança e respeito é um pré-requisito para o aprendizado de qualidade. Quando o aluno se sente acolhido e seguro para participar, ele desenvolve suas habilidades com maior autonomia. Paralelamente a esse estudo, o governo federal reativou um grupo de trabalho focado na formulação de políticas contra o bullying e o preconceito, com prazo de 120 dias para apresentar propostas concretas ao setor educacional.
