O longa-metragem brasileiro A Versão da Lei, que aborda a realidade da violência doméstica no país, será apresentado no próximo dia 18 durante o VDF Showcase, no Marché du Film, em Cannes. O evento, realizado em paralelo ao tradicional Festival de Cinema de Cannes, é reconhecido como o maior mercado cinematográfico do mundo e funciona como uma vitrine estratégica para obras independentes que ainda estão em fase de finalização.
A perspectiva de quem defende
Produzido pela ColetivA DELAS, o filme narra a trajetória de Sol, uma advogada negra e lésbica que trabalha na Vara da Família. O roteiro, assinado pela diretora Nina Fachinello em parceria com Mariana Queiroz, optou por deslocar o foco das vítimas para o cotidiano de quem atua no sistema judiciário. A ideia central é expor os desafios enfrentados por profissionais que tentam conciliar o suporte às mulheres agredidas com as complexidades das leis brasileiras.
Nina Fachinello explica que a narrativa incorpora experiências pessoais de abuso e conflitos jurídicos vividos pela própria diretora, além de relatos de mães solo que enfrentaram episódios de violência psicológica. Para garantir a precisão técnica da obra, a produção contou com a consultoria da juíza Camila Rocha Guerin, especialista em Gênero e Direito, assegurando que as cenas e os trâmites legais apresentados na tela reflitam fielmente a realidade.
Impacto social e números alarmantes
A urgência do tema ganha peso diante dos dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2025, o Brasil atingiu o maior patamar de feminicídios desde o início da série histórica em 2015, com 1.568 mulheres mortas, um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. Para a diretora, a obra funciona como um chamado para o debate público sobre o que ela define como uma epidemia de violência.
O elenco é liderado por Tati Villela, premiada atriz que interpreta a protagonista Sol, e conta com a participação de nomes como Mariana Xavier, Cacau Protásio, Digão Ribeiro e o ator português Pedro Carvalho. Karen Julia dá vida a uma das vítimas de feminicídio retratadas no enredo. O projeto, financiado pela Ancine e pelo BRDE, tem lançamento comercial previsto para 2027, após uma passagem planejada pelo Festival de Veneza em setembro.
O objetivo final da produção ultrapassa o entretenimento. A equipe busca informar o público feminino sobre seus direitos fundamentais e promover mudanças concretas. A expectativa é que, ao assistir à trama, mulheres em situações de vulnerabilidade encontrem força para romper ciclos de abuso e se libertar de relacionamentos tóxicos que representam riscos à sua própria sobrevivência.
