Rio de Janeiro (RJ) – A espera por um leito de terapia intensiva no sistema público de saúde pode ganhar um forte aliado digital. Com a promessa de reduzir drasticamente o tempo de internação e otimizar o fluxo de pacientes, o Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, no Rio de Janeiro, colocou em operação a primeira Unidade de Terapia Intensiva (UTI) Inteligente do Sistema Único de Saúde (SUS) neste sábado (27).
A nova estrutura do conhecido Hospital do Fundão utiliza sistemas integrados capazes de cruzar dados em tempo real. O monitoramento preditivo é o principal motor dessa engrenagem: algoritmos de inteligência artificial analisam os sinais vitais coletados e conseguem prever o agravamento do quadro clínico de um paciente antes mesmo de uma crise se instalar. O sistema emite alertas automáticos para as equipes médicas e atualiza prontuários de forma autônoma.
A dinâmica de socorro também passa a contar com ambulâncias equipadas com tecnologia 5G, que enviam as condições de saúde do paciente em trânsito diretamente para a central do hospital. Projeções baseadas no uso de inteligência artificial e big data estimam que essa agilidade no fluxo de informações tem potencial para encurtar em até cinco vezes o tempo de espera por socorro emergencial.
Expansão nacional de leitos tecnológicos
A instalação fluminense abre caminho para um plano mais amplo de modernização nacional. O Ministério da Saúde planeja estruturar 14 unidades semelhantes em diferentes regiões do país, totalizando 280 novos leitos de alta tecnologia com um aporte financeiro de R$ 180 milhões. As próximas capitais a receberem a novidade estão localizadas no Amazonas, Distrito Federal, Minas Gerais, Paraná, Pernambuco e Rio Grande do Sul.
A lista de hospitais selecionados para essa primeira fase de implementação, que prevê dez leitos iniciais por unidade, inclui instituições de referência como o Hospital das Clínicas da USP (São Paulo), o Hospital Federal do Bonsucesso (Rio de Janeiro), o Hospital das Clínicas da UFMG (Belo Horizonte), o Hospital Universitário de Brasília (HUB), o Hospital Geral Roberto Santos (Salvador), o Instituto de Medicina Integral Prof. Fernando Figueira (Recife), o Hospital Geral de Fortaleza, o Hospital Getulio Vargas (Teresina), a Beneficente Portuguesa (Belém), o Hospital Universitário Evangélico Mackenzie (Curitiba), o Hospital Nossa Senhora da Conceição (Porto Alegre), o Hospital Regional de Dourados (MS) e o Hospital Delphina Rinaldi Abdel Aziz (Manaus).
Aposta em cirurgias robóticas e medicina de precisão
Paralelamente à rede de UTIs, o governo federal destinará R$ 4,8 bilhões para criar o primeiro hospital totalmente inteligente do Brasil. O escolhido para sediar o Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente (ITMI) é o Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP. Com inauguração planejada para 2027, o ITMI terá 800 leitos focados em urgências neurológicas, cardiológicas e de terapia intensiva, com capacidade para atender cerca de 20 mil pessoas por ano.
Para viabilizar a estrutura e equipar outras seis unidades de excelência pelo país, foi captado um financiamento de R$ 1,7 bilhão junto ao Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), o banco dos Brics, com prazo de quitação de 30 anos. O projeto fará parte do programa governamental Agora Tem Especialistas.
Acelerador de radioterapia agiliza tratamentos contra o câncer
Durante a cerimônia de lançamento no Rio, que contou com a presença do ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o Hospital do Fundão também inaugurou seu primeiro acelerador linear de radioterapia, um investimento de R$ 3,4 milhões. Gerido pela EBSERH (empresa pública responsável pela administração de hospitais universitários), o novo aparelho dobra a capacidade diária de atendimento da unidade fluminense de 20 para 40 pacientes.
A física médica Bruna Lamis pontua que a nova tecnologia é crucial por permitir um tratamento muito mais rápido, reduzindo a exposição e protegendo tecidos saudáveis no entorno dos tumores. O plano do governo prevê a distribuição de 70 equipamentos semelhantes a hospitais do SUS ainda este ano.
Para o médico epidemiologista e reitor da UFRJ, Roberto Medronho, a chegada desse maquinário e da UTI inteligente resgata o protagonismo histórico da instituição na liderança científica e tecnológica do setor de saúde pública.
