Naviraí (MS) – A ação policial deflagrada na última terça-feira (4) no município de Naviraí, em Mato Grosso do Sul, revelou as engrenagens de um grupo que usava redes sociais para orquestrar violência contra menores de idade. A Operação Lívia culminou na captura de cinco adolescentes e na prisão de um jovem de 18 anos, todos suspeitos de induzir uma menina de 13 anos a tirar a própria vida no mês passado. O episódio trágico ocorreu durante uma transmissão ao vivo em uma plataforma digital.
Conforme as investigações conduzidas pela Polícia Civil sul-mato-grossense, os envolvidos — que incluem dois adolescentes de 13 anos, um de 14 e dois de 17 — gerenciavam comunidades fechadas no Discord e no Telegram. Nesses espaços virtuais, o bando cooptava o público infantojuvenil para submetê-lo a graves episódios de violência física e psicológica.
O caso, que contou com o suporte do Ciberlab, órgão vinculado ao Ministério da Justiça e Segurança Pública, foi classificado pelo coordenador do laboratório cibernético, Alessandro Barreto, como um verdadeiro cenário de horror. Barreto relatou que os usuários pressionavam a vítima a adotar comportamentos específicos em frente à câmera. Assim que a transmissão foi encerrada, os moderadores criaram uma enquete para agendar a próxima sessão, sem qualquer tipo de filtro ou interrupção por parte das plataformas.
Falhas de moderação e sanções previstas
O secretário nacional de Direitos Digitais, Victor Fernandes, apontou falhas graves na verificação de idade e no sistema de moderação do Discord. Fernandes relembrou que a legislação brasileira — especificamente as diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente aplicadas ao ambiente digital — obriga as plataformas a remover de forma imediata conteúdos dessa natureza e comunicar as autoridades policiais, conduta que não foi adotada na ocasião.
Diante dos fatos, o Ministério da Justiça notificou o Discord e o Telegram para que excluam as contas e os conteúdos associados ao grupo. Paralelamente, foi acionada a Agência Nacional de Proteção de Dados (ANPD) para abrir uma investigação administrativa, processo que pode resultar em sanções de até R$ 50 milhões e no bloqueio temporário das atividades das empresas no território nacional.
O monitoramento policial conseguiu impedir uma nova tragédia ao identificar o planejamento de uma ação contra outra potencial vítima. A equipe do Ciberlab trabalha agora para localizar essa jovem e alertar seus responsáveis. Na avaliação de Sheila de Carvalho, secretária nacional de Acesso à Justiça, a contenção desse tipo de criminalidade organizada exige uma postura mais atenta dentro de casa. Ela alertou sobre a urgência de os pais acompanharem de perto a rotina digital dos filhos, destacando que a violência frequentemente se esconde no cotidiano online de crianças e adolescentes.
Para quem busca suporte emocional ou enfrenta momentos difíceis, o Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece atendimento gratuito e confidencial pelo telefone 188.
