O câncer de mama não é uma exclusividade feminina, embora o estigma e a desinformação ajudem a manter essa crença. A negligência sobre o tema gera um efeito prático perigoso: quando os homens finalmente buscam ajuda médica, a doença frequentemente já avançou para quadros mais graves.
Um levantamento realizado com dados dos Registros Hospitalares de Câncer (RHC) mapeou 163 mil casos da doença entre 2020 e 2023. Desse universo, 2.126 registros ocorreram em homens. Embora representem uma parcela pequena — pouco mais de 1% do total de ocorrências — a gravidade do cenário clínico entre eles acende um alerta importante.
O estadiamento, que classifica a extensão do tumor de zero a quatro, mostra a discrepância na prática. Enquanto 26,42% das mulheres chegam ao diagnóstico já com metástase, no estágio IV, esse índice sobe para 29,95% entre os homens. A estrutura física masculina, com menos tecido mamário, facilita que o tumor invada rapidamente a pele ou a musculatura torácica, mesmo sendo inicialmente pequeno.
A percepção tardia dos sintomas é o grande vilão. Sinais como caroços, secreções — especialmente aquelas com presença de sangue — ou qualquer alteração no mamilo são ignorados por homens que jamais cogitaram a possibilidade de desenvolver a patologia. É um diagnóstico que costuma ser adiado pelo simples fato de o paciente não se reconhecer como público-alvo da doença.
Apesar do diagnóstico frequentemente tardio, o tratamento apresenta bons prognósticos quando iniciado a tempo. A cirurgia segue como o pilar terapêutico para tumores localizados, podendo ser complementada com quimioterapia, radioterapia e terapia hormonal. Técnicas modernas garantem hoje mais precisão, preservando tecidos saudáveis durante a radioterapia, o que auxilia na redução da reincidência.
A sobrevida relativa masculina em cinco anos supera os 80%, podendo chegar a 95% quando a doença é identificada ainda restrita à mama. Contudo, o alerta também se estende às mulheres mais jovens. Uma análise sobre o público feminino com menos de 40 anos mostrou que 85,6% dos casos são identificados nos estágios II, III ou IV. Para o cirurgião oncológico Juliano Rodrigues Cunha, o dado sublinha a necessidade urgente de investigar qualquer alteração persistente nas mamas, independentemente da faixa etária ou das diretrizes de rastreamento habitual.
O cenário, traçado por especialistas, aponta para uma necessidade óbvia: a democratização da informação. O câncer de mama é uma doença sistêmica que ignora gêneros. Reconhecer a existência do risco e a importância de investigar alterações logo no surgimento dos primeiros sinais continua sendo a estratégia mais eficaz para mudar as estatísticas de mortalidade tanto em homens quanto em mulheres.
