Paris, França – O rastro de destruição deixado pelas recentes manifestações na França colocou o governo do presidente Emmanuel Macron em alerta máximo. O saldo do fim de semana inclui um manifestante morto por parada cardíaca em Paris, mais de duas mil pessoas detidas e cerca de 600 policiais feridos em todo o país. Na tarde de domingo (18), a fumaça de bicicletas incendiadas e o gás lacrimogêneo voltaram a tomar a Place de la République, no coração da capital, sinalizando que a poeira ainda está longe de baixar.
As marchas de sábado (17) reuniram mais de meio milhão de pessoas em dezenas de municípios. No entanto, os atos pacíficos contra o custo de vida e o sucateamento dos serviços públicos foram tomados por episódios de violência extrema. O estopim de uma insatisfação que começou há um mês com mobilizações estudantis por melhorias nas escolas de periferia transformou-se em saques e depredações em escala nacional.
A conta da devastação urbana
Em Limoges, no sudoeste do país, um incêndio criminoso praticamente destruiu a prefeitura de 143 anos. O prefeito Guillaume Guerin classificou a ação como premeditada e ameaçou deixar o cargo caso o município não receba repasses para a reconstrução. Situação parecida ocorreu em Bordeaux, onde um grupo mascarado invadiu a residência oficial do prefeito, e cerca de 100 estabelecimentos comerciais foram saqueados, de acordo com o prefeito Thomas Cazenave.
Os prejuízos do setor privado também atingem cifras milionárias. O presidente-executivo do Carrefour, Alexandre Bompard, confirmou que 50 unidades da rede de varejo sofreram danos, sendo 20 delas totalmente saqueadas. Diante do impacto, o ministro da Economia, Roland Lescure, garantiu assistência aos comerciantes lesados e afirmou que os responsáveis pela violência arcarão com os prejuízos. Em Marselha, o prefeito Benoit Payan já anunciou a liberação de recursos emergenciais para apoiar o comércio local.
Crise política e pressão sobre o governo
A gravidade dos conflitos atingiu inclusive o turismo local. O empresário holandês Tije De Boer, que visitava Paris com os filhos, relatou que o cenário no centro da capital lembrava uma zona de guerra, obrigando a família a abandonar o hotel onde estava hospedada.
A crise inflama a oposição diante do cenário eleitoral que se aproxima. O líder de extrema-direita Jordan Bardella acusou o governo de enfraquecer as forças de segurança e pediu publicamente a renúncia de Macron. Em contrapartida, o primeiro-ministro Sébastien Lecornu e o ministro do Interior, Laurent Nunez, atribuíram o caos a grupos de extrema-esquerda e criminosos infiltrados. Com o mandato previsto para terminar em 2027, Macron convocou um pronunciamento à nação na noite de domingo para tentar conter o desgaste político de sua gestão.
