Niterói (RJ) – Sob uma chuva constante na noite de 5 de outubro, uma segunda-feira, centenas de pessoas percorreram as ruas de Niterói, entre a Faculdade de Direito no Ingá e a reitoria da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Icaraí. O cartaz de convocação trazia um recado direto: “O abalo e o espanto precisam se transformar em movimento”. A reação nascia do resultado do primeiro turno das eleições, quando o senador Flávio Bolsonaro alcançou 47% dos votos válidos contra 45% de Luiz Inácio Lula da Silva.
Criado na noite de domingo pelo Centro Acadêmico Evaristo da Veiga e pela Associação Atlética Acadêmica Camillo Guerreiro, o protesto canalizou a apreensão com propostas de Flávio, como transferir as universidades do Ministério da Educação para o de Ciência e Tecnologia, pasta com orçamento bem menor. “A vitória dele significaria corte em todas as áreas, da infraestrutura ao auxílio permanência”, explicou Valentina Cruz, diretora do Centro Acadêmico de Direito.
Memória recente e tensão nas ruas
Para o universitário Simão Gabriel Adorno, a mobilização considerou os impactos sofridos pelas federais na gestão de Jair Bolsonaro, quando a UFF enfrentou contingenciamento de até 30% de verbas após o ex-ministro Abraham Weintraub acusar os campus de promoverem “balbúrdia”. Os estudantes também rejeitavam a anistia defendida por apoiadores do ex-presidente, preso pela tentativa de golpe em 8 de janeiro de 2023.
“A gente precisava fazer algo. Era para ser uma coisa interna, mas viraram centenas de pessoas”, contou João Paulo Armando, também diretor do centro acadêmico. A marcha levou às ruas a bandeira do Direito Antifascista, confeccionada em 2018, e atraiu outros cursos, como Relações Internacionais. Moradores locais e transeuntes se juntaram à caminhada, incluindo uma idosa de bengala que se emocionou na chuva, embora moradores contrários tenham arremessado ovos de sacadas.
“Vimos nosso país e nossa democracia em risco e decidimos ser um ponto de resistência”, recordou Cauê Moraes Marins da Silva, de 22 anos, diretor do Centro Acadêmico Sérgio Vieira de Melo. Já Isabela Casalini, de 21 anos, aluna de desenho industrial que tirara o título de eleitor aos 16 anos contra o bolsonarismo, viu no ato a faísca necessária para buscar a virada nas urnas.
Ressonância nacional e contexto histórico
O ato em Niterói motivou novos protestos ao longo da semana. Na quarta-feira, 7 de outubro, estudantes ocuparam o centro do Rio de Janeiro. A onda se espalhou por Brasília e outras capitais, focando no convencimento de eleitores indecisos e abstêmios.
Para a historiadora Carolina Barreto, autora do livro “Quando 2013 encontra 1968”, a mobilização retoma o protagonismo jovem visto nas campanhas contra o nazifascismo nos anos 1940, na criação da Petrobras, no “Fora Collor” e em junho de 2013. A avaliação é compartilhada pelo advogado Felipe Santa Cruz, doutorando na UFF e ex-presidente nacional da OAB. Seu pai, Fernando Santa Cruz, era aluno de direito da UFF quando desapareceu durante a ditadura militar em 1974. “Os estudantes se indignaram com o risco que o país corria e tomaram a história nas próprias mãos”, afirmou.
