Uma pesquisa realizada pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) revela que 53% das famílias brasileiras nunca ou raramente leem livros para crianças de 5 anos matriculadas na pré-escola. O levantamento, que analisou estudantes no Ceará, Pará e São Paulo, aponta que apenas 14% dos responsáveis realizam a leitura compartilhada com frequência semanal de três a sete vezes, índice significativamente abaixo da média internacional de 54%.
Impactos no desenvolvimento infantil
O estudo, intitulado Aprendizagem, bem-estar e desigualdades na primeira infância em 3 estados brasileiros, destaca que a falta desse hábito é um problema que atravessa todas as classes sociais. Segundo Tiago Bartholo, coordenador do levantamento e pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a importância da leitura como pilar da alfabetização ainda não está clara para a sociedade, o que prejudica tanto o bem-estar quanto o desenvolvimento cognitivo dos pequenos.
A investigação coletou dados de 2.598 crianças em 210 escolas, sendo 80% da rede pública. Os pesquisadores avaliaram competências fundamentais, como linguagem e raciocínio matemático, funções executivas de autorregulação e habilidades socioemocionais. Os resultados indicam que o Brasil superou a média internacional em literacia emergente, com 502 pontos, reflexo de políticas públicas recentes de alfabetização, mas ficou abaixo na numeracia, com 456 pontos, revelando disparidades sociais acentuadas.
Desigualdades e o uso de telas
O Brasil foi o único país a incluir um recorte racial na análise, evidenciando que crianças pretas, pardas e indígenas, além daquelas de menor nível socioeconômico, enfrentam maiores obstáculos no aprendizado. A diferença de pontuação entre crianças brancas e pretas chega a 17 pontos em linguagem e 40 pontos em numeracia, reforçando a necessidade de políticas públicas intersetoriais que integrem saúde, educação e proteção social.
Outro ponto de alerta diz respeito ao tempo de tela. Pela primeira vez, o estudo mapeou o uso de dispositivos digitais entre crianças brasileiras de 5 anos, revelando que 50,4% utilizam computadores, tablets ou celulares diariamente, uma taxa superior à média global de 46%. Apenas 11,4% das crianças na amostra nunca ou quase nunca utilizam esses aparelhos.
O pesquisador Tiago Bartholo ressalta que o uso diário e prolongado de telas está associado a um desempenho inferior em leitura e matemática. Além disso, o levantamento apontou que 62% das crianças raramente utilizam dispositivos digitais para fins educativos, o que reforça a necessidade de mediação familiar e equilíbrio no consumo de tecnologia para garantir que o tempo digital não prejudique o aprendizado essencial nesta fase da vida.
