O empresário Daniel Vorcaro desembolsava mensalmente R$ 1 milhão para sustentar uma rede de monitoramento ilegal, intimidação de opositores e acesso a informações sigilosas. A estrutura, revelada por dados obtidos pela Polícia Federal durante a Operação Compliance Zero, tinha como eixo central a figura de Luiz Phillipi Mourão, o Sicário, apontado como o operador principal das atividades clandestinas a serviço do banqueiro.
A engrenagem do esquema funcionava por meio de três braços operacionais distintos. A gestão do fluxo financeiro estava sob responsabilidade de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, e de Ana Paula Queiroz. É a partir das mensagens encontradas no celular do banqueiro que os investigadores desenharam como os recursos bancavam ações que iam da coleta de inteligência à coerção física direta.
Um dos pilares dessa operação era o grupo autodenominado “A Turma”. Liderado pelo policial federal aposentado Marilson Roseno da Silva, o núcleo contava com outros cinco agentes e recebia R$ 400 mil mensais via King Participações Imobiliárias, empresa que pertencia a Sicário. A função do grupo era clara: infiltrar-se em inquéritos policiais e processos judiciais sob sigilo, além de extrair dados privados de indivíduos e corporações a partir de sistemas oficiais restritos.
Os registros das comunicações interceptadas expõem um modus operandi agressivo. Há evidências de ameaças a ex-funcionários, a presença de intermediários armados e relatos de episódios de violência física — tudo com a finalidade de silenciar quem fosse identificado como entrave aos interesses de Vorcaro. O objetivo era, de forma sistemática, exercer pressão psicológica e controlar o fluxo de informações que pudesse atingir o empresário ou seus negócios.
Paralelamente ao grupo de campo, o banqueiro mantinha o que chamava de “Os Meninos”. Este núcleo, especializado em ataques cibernéticos, atuava na invasão de perfis e sites para manipulação de imagem. Eles eram encarregados de remover conteúdos desfavoráveis, roubar senhas e realizar ações de impulsionamento voltadas aos interesses de Vorcaro.
O alcance da rede ultrapassava os limites da espionagem corporativa. O relatório da Polícia Federal aponta que o empresário mantinha um catálogo com nomes de delegados, procuradores e agentes federais. Além disso, Vorcaro possuía canais de acesso a informações internas do Banco Central. O nível de penetração do esquema era tamanho que o banqueiro teve acesso a detalhes da operação policial um dia antes de sua prisão, ocorrida em novembro do ano passado.
Diante da iminência da investida policial, as mensagens sugerem que Vorcaro avaliava estratégias para evadir-se do território nacional, planejando fugir do país pouco antes de ser detido. O conteúdo dos diálogos agora serve como base fundamental para as apurações que detalham como o poder econômico foi utilizado para violar sistemas sensíveis e perseguir agentes públicos.
