Marcelo Bielsa, técnico do Uruguai, conquistou um título curioso fora das quatro linhas. Segundo uma análise de inteligência artificial da empresa Sinch, o treinador argentino foi o comandante com a comunicação mais original durante o torneio, registrando a menor taxa de clichês nas entrevistas coletivas.
O levantamento analisou 396 coletivas de imprensa de 48 treinadores, realizadas antes e depois das partidas, em seis idiomas diferentes. O sistema, batizado de Expected Cliché Tracker (xC Tracker), mede a frequência com que os técnicos recorrem a frases prontas e expressões repetitivas.
Bielsa terminou a competição com uma média de apenas 6 pontos xC por coletiva, o menor índice entre todos os participantes. Em contraste, o campeão mundial com a Espanha, Luis de la Fuente, registrou média de 45 xC, sete vezes superior ao do uruguaio e acima da média geral do torneio, que foi de 36 xC.
Os cinco treinadores mais originais
| Posição | Treinador | Seleção | Média xC |
|---|---|---|---|
| 1º | Marcelo Bielsa | Uruguai | 6 |
| 2º | Dick Advocaat | Curaçao | 15 |
| 3º | Fabio Cannavaro | Uzbequistão | 20 |
| 4º | Murat Yakin | Suíça | 22 |
| 5º | Graham Arnold | Iraque | 22 |
Os cinco técnicos que mais recorreram a clichês
| Posição | Treinador | Seleção | Média xC |
|---|---|---|---|
| 1º | Tony Popović | Austrália | 60 |
| 2º | Gustavo Alfaro | Paraguai | 59 |
| 3º | Pedro Leitão Brito (Bubista) | Cabo Verde | 55 |
| 4º | Thomas Tuchel | Inglaterra | 51 |
| 5º | Vincenzo Montella | Turquia | 50 |
As frases mais repetidas
Entre as expressões mais utilizadas pelos treinadores ao longo da competição, destacaram-se:
- “Respeitamos todos os adversários” – utilizada por 9 técnicos, aparecendo 15 vezes.
- “Focamos no que podemos controlar” – usada por 9 treinadores, em 11 ocasiões.
- “Conhecemos nossas qualidades” – empregada por 6 técnicos, com 9 registros.
- “Precisamos nos adaptar às condições” – utilizada por 5 treinadores, em 7 oportunidades.
- “O país está ao nosso lado” – também usada por 5 técnicos, em 7 coletivas.
Pressão aumentou o uso de clichês
A pesquisa identificou que, à medida que o torneio avançava e a pressão crescia, os treinadores passaram a recorrer com mais frequência a discursos padronizados. A média de xC subiu de 28 pontos ao fim da fase de grupos para 36 pontos na decisão.
Embora Luis de la Fuente tenha figurado entre os técnicos com maior índice de clichês, sua comunicação apresentou um padrão consistente. As expressões “é um processo” e “trabalho, trabalho, trabalho” foram as mais repetidas pelo treinador espanhol.
Já Thomas Tuchel, que conduziu a Inglaterra ao melhor desempenho em uma Copa do Mundo em seis décadas, terminou com média de 51 xC, concentrando suas entrevistas em temas como espírito de equipe e mentalidade.
Em sentido oposto, Lionel Scaloni, da Argentina, e Didier Deschamps, da França, priorizaram análises táticas, registrando médias de 31 e 28 xC, respectivamente.
Comunicação sob pressão
Para Robert Gerstmann, cofundador e Chief Evangelist da Sinch, o estudo mostra que a pressão influencia diretamente a forma como líderes se comunicam.
“Os treinadores que se destacaram neste torneio não foram necessariamente os mais engraçados ou carismáticos, mas aqueles que conseguiram explicar suas decisões com clareza, independentemente do resultado. Quando a pressão aumenta, muitos líderes recorrem naturalmente a frases familiares por parecerem mais seguras. No entanto, quem conquista mais atenção costuma ser quem comunica com clareza, e não quem repete roteiros prontos.”
Segundo a Sinch, a iniciativa pretende mostrar que os desafios da comunicação sob pressão vão muito além do futebol e se aplicam também ao mundo corporativo e à liderança em diferentes áreas.
