O tempo passa, mas a retórica permanece surpreendentemente familiar. Em 1891, logo no alvorecer da República, o senador Coelho e Campos bradava: “Minha mulher não irá votar”. Naquela mesma época, o parlamentar Serzedelo Corrêa sentenciava que envolver o público feminino em paixões políticas equivaleria a privá-las de sua suposta santidade. Mais de 130 anos depois, a tecnologia mudou, o alcance das vozes se ampliou, mas a essência do discurso sobrevive. O influenciador Paulo Figueiredo, em 2026, afirmou que mulheres votam estatisticamente mal — sugerindo que as solteiras seriam um problema e as casadas seriam meros reflexos da vontade de seus maridos.
Para estudiosas do sufrágio, esse fenômeno não é um choque de modernidade, mas uma demonstração de continuidade. O que se observa agora são as mesmas reações a cada passo dado na direção da autonomia feminina. Fernanda Abreu, professora de direito na Universidade Estadual do Rio Grande do Norte (UERN), é direta: a lógica que sustenta o patriarcado não mudou, apenas se travestiu de nova roupagem. Ela alerta que a democracia não é um estado de repouso, mas uma conquista que exige manutenção constante.
Do ponto de vista jurídico, o cenário é claro. Qualquer tentativa de questionar o sufrágio feminino hoje colide frontalmente com o Artigo 14 da Constituição de 1988, que garante o voto universal independentemente de gênero. Mais do que inconstitucional, acadêmicas apontam que tais falas flertam com o discurso criminoso, conectando-se perigosamente a movimentos antifeministas globais que buscam, abertamente, o retrocesso de direitos civis básicos.
A gravidade aumenta quando olhamos para a demografia do eleitorado brasileiro. Em 2026, as mulheres somam mais de 83,8 milhões de eleitoras, superando numericamente os homens, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Elas também lideram em escolaridade: 29,28% das eleitoras completaram o ensino médio e 13,08% possuem curso superior. Essa maioria numérica e intelectual torna o ataque ao voto não apenas uma opinião deturpada, mas uma tática deliberada de intimidação política.
Cibele Tenório, pesquisadora da Universidade de Brasília (UnB) e biógrafa da pioneira Almerinda Gama — uma das primeiras mulheres negras a trilhar os caminhos da política nacional —, reforça que, embora uma revogação formal pareça improvável no horizonte, o perigo reside no desestímulo. O objetivo dessas ofensivas é criar um ambiente de hostilidade que force a mulher a se retirar do espaço público. Historicamente, essa tática remonta à primeira Constituição Republicana, que excluiu as mulheres sob a justificativa de uma suposta incapacidade intelectual para a vida pública.
Naquela época, a ridicularização era a ferramenta preferencial. Jornais publicavam charges que inverteram papéis de gênero para zombar de figuras como Leolinda Daltro, fundadora do Partido Republicano Feminino, que teve sua candidatura à Intendência Municipal do Rio de Janeiro vetada pelo Estado. Leolinda, assim como outras tantas, foi rotulada como baderneira. O Código Eleitoral de 1932, mesmo ao instituir o voto, ainda carregava o estigma do conservadorismo ao exigir, em versões preliminares, a autorização do marido para que a mulher pudesse exercer seu direito — um entrave removido apenas pela força da pressão sufragista.
A conquista não caiu do céu. Foi fruto de uma estratégia sofisticada. Bertha Lutz, por exemplo, não apenas protestava; ela sabia conversar com os conservadores e forjar alianças improváveis. Em 1922, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino articulou governadores e pressionou o Congresso com um método pragmático e internacionalizado. O decreto de 1932 foi o ápice dessa articulação, tornando o Brasil o quarto país ocidental a assegurar o voto feminino, um direito que só se tornou obrigatório para mulheres alfabetizadas em 1946 e, finalmente, universal em 1988.
Hoje, contudo, a dependência econômica e a persistente disparidade salarial ainda atuam como muros invisíveis que impedem a plena participação. Hildete Pereira, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF), destaca que a sociedade ainda tende a empurrar a mulher para o papel de cuidadora, e não de representante. A lição das sufragistas de 1917, que marchavam pelo centro do Rio de Janeiro, continua ecoando: o direito é frágil e a história, quando esquecida, tende a repetir suas facetas mais cruéis.
