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Saúde

Câncer de pulmão atinge estágios avançados em quase 90% dos pacientes atendidos pelo SUS

Última atualização: 6 de Agosto, 2026 18:56
Por
Erre Soares
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4 Min Leia
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O câncer de pulmão carrega uma característica perigosa: a discrição. Quando os primeiros sinais surgem — uma tosse persistente, leve falta de ar ou sintomas que mimetizam bronquites e gripes —, o tempo para uma intervenção curativa frequentemente já se esgotou. A realidade brasileira espelha um cenário global preocupante, onde a maioria das detecções ocorre quando a enfermidade já está disseminada pelo organismo.

Uma análise recente conduzida pelo Instituto Lado a Lado pela Vida, utilizando a plataforma Data Câncer 360º, mapeou 14.145 diagnósticos realizados no Sistema Único de Saúde (SUS) ao longo de 2023. O resultado aponta que 89,6% dos pacientes com estadiamento identificado — um total de 7.267 pessoas — receberam a notícia quando a doença já estava nos estágios 3 ou 4. Em contraste, apenas 698 indivíduos, ou 10,4% do grupo, descobriram o tumor nas fases iniciais, onde o prognóstico é consideravelmente mais favorável.

O oncologista Igor Morbeck, membro do Comitê Científico do instituto, aponta que o acúmulo de fatores de risco, como o sedentarismo, a obesidade, o tabagismo e escolhas alimentares inadequadas, impulsiona a incidência da patologia. Embora a tomografia anual seja uma ferramenta disponível no SUS, o sistema carece de um programa estruturado de rastreamento voltado especificamente ao pulmão. Sem um protocolo preventivo, o paciente acaba acessando a rede apenas quando o quadro já está crítico.

A falha no diagnóstico precoce é agravada por uma lacuna técnica nas unidades básicas. Em muitos atendimentos, o raio X de tórax ainda é utilizado como método de triagem, um exame insuficiente para detectar precocemente tumores pulmonares. O resultado é a prescrição de antibióticos para sintomas que, na verdade, mascaram uma neoplasia em evolução. Além disso, o estudo revelou uma precariedade na própria coleta de dados: em 40% dos registros, informações vitais sobre o tamanho do tumor e a presença de metástases foram ignoradas ou classificadas como não aplicáveis.

A situação é mais severa na região Sudeste, devido à alta densidade demográfica, mas o Sul também apresenta números elevados, impulsionados pela prevalência do tabagismo. Este, vale lembrar, segue como o principal fator de risco, associado a cerca de 85% dos casos. No entanto, o surgimento do cigarro eletrônico entre os jovens desenha um horizonte de complicações futuras, visto que o vício se estabelece de forma mais célere.

Para mudar esse curso, especialistas defendem uma ação coordenada do Ministério da Saúde que envolva agentes comunitários na identificação de perfis de risco nas residências. O objetivo seria integrar a tomografia à rotina de tabagistas e ex-tabagistas, reduzindo o custo social e econômico de tratamentos de longa duração. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) estima, para o triênio 2026-2028, a chegada de mais de 35 mil novos casos por ano, sublinhando a urgência de uma estratégia nacional.

A história de Mônica Chain Montone, diagnosticada em 2008 e curada após uma recidiva em 2010, serve como contraponto positivo. A detecção precoce na primeira ocorrência permitiu uma cirurgia com alta probabilidade de sucesso. Hoje, ela defende a conscientização contínua, especialmente durante o mês de agosto, dedicado à prevenção, lembrando que a informação ainda é a barreira mais difícil de transpor contra o silêncio da doença.

MARCADOcâncer de pulmãoDiagnóstico PrecoceoncologiaSaúde PúblicaSUS
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