Santo Antônio do Descoberto (GO) – No próximo dia 4 de outubro, o trajeto até a seção eleitoral em Santo Antônio do Descoberto, Goiás, terá um simbolismo especial para a família de Joaquim Moreira. Aos 87 anos, o agricultor veterano da comunidade de Antinha de Baixo percorrerá o caminho acompanhado pela neta, Thauany Silva, de 16 anos, que fará sua estreia nas urnas. O entusiasmo da adolescente, que obteve o título assim que atingiu a idade mínima em abril, reflete uma mudança de comportamento observada em territórios tradicionais de todo o país.
Os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmam a tendência: o eleitorado que se identifica como quilombola praticamente dobrou entre as eleições municipais de 2024 e o pleito de 2026, saltando de 95.409 para 188.371 pessoas. Em Goiás, o contingente passou de 3.625 para 5.394 votantes. Para Mayara Silva, mãe de Thauany, a educação política é uma ferramenta de sobrevivência. Ela ensina aos filhos que a rotina comunitária é indissociável da gestão pública. A lógica é simples para a jovem eleitora: votar é zelar pelo futuro coletivo.
Essa percepção de que a política permeia todas as esferas da existência é compartilhada por Franciele Silva, estudante de Direito na Universidade Federal da Bahia (UFBA) e moradora da comunidade de Rio dos Macacos, em Simões Filho. Franciele, que vota desde os 18 anos, enxerga o exercício democrático como uma extensão de sua atuação em defesa do território. O Nordeste, inclusive, concentra a maior parcela dessa população, registrando um aumento de 51.633 para 95.901 eleitores no mesmo período.
Bia Nunes, pesquisadora da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), aponta que esse crescimento é fruto de uma conscientização crescente sobre o papel desses grupos como guardiões da biodiversidade. A estratégia é transformar a relevância ambiental em pauta política. No entanto, o cenário ainda impõe riscos graves. A própria pesquisadora integra programas de proteção após ter sofrido ameaças de morte quando foi candidata em 2020, o que evidencia a necessidade de maior amparo estatal para garantir a segurança dessas lideranças.
O engajamento também passa pelo letramento e pelo combate à desinformação. Na comunidade Mesquita, em Cidade Ocidental (GO), o educador financeiro Rafael Costa observa que a politização amadurece à medida que os moradores acessam mais informações sobre seus direitos. Para ele, o espírito de cooperação tradicional dessas comunidades é um escudo contra a manipulação. Ao compreenderem a fundo seu modo de produção e seu papel social, os jovens adultos têm fortalecido a resistência política, garantindo que a voz das comunidades quilombolas tenha cada vez mais peso no destino do país.
