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Internacional

Governo dos EUA garante controle sobre 21% das reservas de petróleo da Venezuela por um século

Última atualização: 1 de Setembro, 2026 17:09
Por
Erre Soares
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4 Min Leia
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Washington, Estados Unidos – Na última segunda-feira, dia 31, a Casa Branca detalhou os termos de um acordo estratégico que assegura aos Estados Unidos influência direta sobre 21% das reservas de petróleo venezuelanas. A operação, com duração prevista de 100 anos, será executada pela North American Blue Energy Partners (Nabep), uma entidade privada na qual o Escritório de Capital Estratégico do Departamento de Guerra dos EUA detém 35% de participação acionária.

A configuração jurídica do pacto confere ao Departamento de Estado norte-americano a prerrogativa de adquirir, pelo preço de custo, 20% de todo o petróleo extraído nos campos operados pela Nabep. Além da garantia de suprimento para recompor a Reserva Estratégica de Petróleo americana, o governo dos EUA assegurou preferência na compra dos 80% restantes da produção. O controle vai além da logística: a Casa Branca mantém poder de veto sobre a composição do conselho de administração da companhia, cujos membros devem, majoritariamente, possuir cidadania americana.

A parceria sinaliza um reposicionamento geopolítico sob a égide da Doutrina Monroe. O comunicado oficial do governo Trump não poupa palavras ao descrever a intenção de eliminar a presença de empresas da Rússia, China ou Cuba em território venezuelano, consolidando a supremacia de Washington no hemisfério. A validade jurídica deste compromisso é pautada integralmente pelas leis americanas, submetendo qualquer litígio à jurisdição dos tribunais daquele país.

O cenário que viabilizou esse desenho contratual é controverso. Meses após o sequestro do presidente Nicolás Maduro por forças americanas em 3 de janeiro, o governo da presidente interina Delcy Rodríguez alterou a legislação petroleira do país. A mudança permitiu a exploração direta por empresas privadas, que anteriormente atuavam apenas como sócias minoritárias do Estado venezuelano. A discrepância entre as declarações de Caracas e Washington chama a atenção: enquanto Rodríguez menciona um prazo de 25 anos para o acordo, os documentos oficiais dos EUA apontam um horizonte de um século.

A sede da Nabep, localizada em Barbados, coordena operações a partir de Caracas, Maracaibo e Lechería, sob o comando do empresário Alejandro Betancourt. Embora a empresa comemore um salto na produção — de 18 mil para 200 mil barris diários após um aporte de US$ 1 bilhão —, especialistas apontam fragilidades na narrativa oficial. O economista Francisco Rodríguez, da Universidade de Denver, observa que a receita fiscal prometida por barril é ínfima, girando em torno de US$ 3,22, o que equivale a menos da metade dos royalties praticados na década de 1920.

Essa entrega de ativos gerou divisões profundas dentro do chavismo. Enquanto o Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) tenta legitimar a medida como um motor de recuperação econômica, grupos como a Frente Popular Antiimperialista e o Movimento Revolucionário Tupamaro classificam o arranjo como um retrocesso colonial. Pesquisadores acadêmicos reforçam o diagnóstico de que a mudança ocorre sob coação. Thaís Batista, do Observatório Político Sul-Americano, argumenta que o uso sistemático da força e da ameaça direta minou a soberania venezuelana e compromete os projetos de integração latino-americana que vinham sendo gestados pelo Brasil e por outros vizinhos.

O impacto dessa manobra transcende a economia venezuelana, inserindo-se na crise global de oferta gerada pelo fechamento do Estreito de Ormuz. Com as eleições legislativas americanas próximas, o governo Trump parece apostar na estabilização do preço dos combustíveis para manter o apoio popular, ainda que o custo dessa estabilidade seja o redesenho forçado do mapa energético da América Latina.

MARCADOenergiaEstados UnidosGeopolíticaPetróleovenezuela
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