O financiamento da segurança pública nos estados brasileiros desenha um funil de prioridades onde a base da pirâmide, composta pela reintegração social, recebe quase nada. Para cada real destinado a políticas exclusivas de apoio a egressos do sistema prisional em 2025, os governos estaduais desembolsaram R$ 5.423 com as polícias. O abismo financeiro é detalhado na edição mais recente da pesquisa O Funil de Investimentos da Segurança Pública nos Estados Brasileiros, que será apresentada nesta quinta-feira (17) durante o 20º Encontro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O estudo, que abrangeu 26 unidades federativas — com exceção do Acre, que não disponibilizou informações —, revela uma disparidade crescente. No ciclo anterior, a proporção era de R$ 4.877 gastos com o aparelho policial para cada real direcionado à ressocialização de ex-detentos. A concentração de recursos na entrada do sistema criminal, segundo especialistas, reflete um modelo de gestão que prioriza o policiamento ostensivo em detrimento da investigação qualificada.
O montante global destinado às polícias saltou de R$ 87,5 bilhões em 2024 para R$ 103,5 bilhões em 2025. Desse total, as Polícias Militares abocanharam a fatia majoritária de R$ 60,7 bilhões, o equivalente a quase 59% da verba. Em contrapartida, as polícias investigativas e de perícia técnico-científica receberam parcelas significativamente menores, indicando uma política pública focada mais na presença de rua do que na inteligência policial necessária para desmontar estruturas criminosas.
A diretora-executiva do centro de pesquisa responsável pelo levantamento, Luciana Zaffalon, observa que essa lógica alimenta um ciclo de encarceramento em massa carente de evidências robustas. O gasto com o sistema prisional em 2025 somou R$ 22,3 bilhões, sendo que R$ 13,7 bilhões desse valor estão ligados à manutenção de pessoas negras na prisão. O cruzamento com o Sisdepen revela uma crônica ineficiência: o país mantém um volume elevado de custodiados, predominantemente pobres e pretos, enquanto a capacidade de enfrentar o crime organizado segue estagnada.
O drama se agrava na porta de saída. Em 2025, os estados reservaram apenas R$ 19 milhões para o suporte aos egressos, um valor praticamente idêntico aos R$ 18 milhões do ano anterior. O recurso é fundamental para garantir acesso básico a documentos, moradia, trabalho e saúde, pilares que sustentam a reconstrução da vida pós-pena. Contudo, a escassez de verbas reflete a falta de interesse político na reintegração.
Apenas sete estados registraram investimentos exclusivos para egressos neste ano. São Paulo lidera o ranking com R$ 13,3 milhões, seguido por Ceará, Mato Grosso, Bahia, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e Sergipe. Em Tocantins, o cenário ilustra o descaso: embora o orçamento previsse verba para a área, o valor não foi efetivamente executado. Para pesquisadores, o fenômeno do populismo penal, que instrumentaliza o medo como plataforma eleitoral, reforça o investimento em prisões enquanto negligencia as ferramentas capazes de quebrar a espiral da reincidência.
