O cenário das eleições brasileiras mudou. O desinteresse pelo voto não decorre apenas de um desencanto com a classe política, mas de um fenômeno silencioso que atinge a saúde mental de uma parcela expressiva do eleitorado: a exaustão crônica aliada à solidão. Dados revelados nesta semana pela pesquisa Termômetro do Bem Viver, realizada por meio de uma parceria entre o projeto da Plataforma Avaaz e o Datafolha, trazem um diagnóstico sobre o esvaziamento das seções eleitorais.
Cerca de 30 milhões de pessoas — o equivalente a um terço dos eleitores — abstiveram-se nos últimos pleitos. O levantamento investigou a fundo o comportamento desses cidadãos e identificou que a dependência digital, o esgotamento mental e a ausência de conexões comunitárias são os pilares dessa desmobilização. Em contrapartida, os indivíduos com fortes laços sociais demonstram maior adesão ao processo democrático, tratando-o como um ponto inegociável da vida em sociedade.
Nana Queiroz, diretora do Projeto Desapocalíptica do Avaaz, define o público que se afastou das urnas como “desvinculados”. Segundo a pesquisadora, essas pessoas encontram nas redes sociais e na televisão uma forma de anestesia para a fadiga cotidiana. O problema, contudo, se agrava dentro das bolhas digitais, onde a propagação de discursos de ódio e o isolamento aumentam sentimentos de culpa e desesperança. Ao se sentirem exaustos e desconectados do mundo físico, esses eleitores perdem a percepção de que sua participação individual possui poder transformador sobre o coletivo.
O perfil dos “desvinculados” é composto majoritariamente por jovens. Entre os brasileiros de 18 a 34 anos, 44% se enquadram nessa categoria de distanciamento, sendo que apenas 20% dessa faixa etária relatam possuir conexões comunitárias saudáveis. A rigidez de jornadas de trabalho exaustivas, a exemplo do regime 6×1, é apontada como um fator determinante para a redução do tempo dedicado ao lazer e ao fortalecimento de redes de apoio pessoal.
Para reverter esse quadro de abstenção, a pesquisa defende a implementação de políticas de Bem Viver. A ideia central é que a recuperação do interesse público passa, obrigatoriamente, pela melhoria da qualidade de vida na esfera privada. Isso inclui a promoção de espaços públicos mais acessíveis, incentivo à cultura, lazer e, fundamentalmente, o contato constante com a natureza, que atua como um restaurador da saúde mental diante da ansiedade recorrente.
O enfrentamento ao design viciante das plataformas digitais também surge como uma necessidade estratégica. Iniciativas como o ECA Digital são citadas como exemplos de regulação capaz de limitar ferramentas como a rolagem infinita, que mantém o usuário refém do consumo de conteúdo. Conquistar o voto desse contingente depende, em última análise, de uma mudança palpável na rotina das pessoas, permitindo que elas voltem a enxergar um nexo direto entre o ato de votar e a realidade concreta de suas vidas.
