Nova York, Estados Unidos – A corrida pela hegemonia tecnológica ganhou contornos mais nítidos nesta quarta-feira (22). Durante a abertura da 81ª Assembleia Geral da ONU, o presidente dos EUA, Donald Trump, rechaçou abertamente qualquer formato de governança internacional para a inteligência artificial. O mandatário foi categórico ao afirmar que o país não se submeterá a esquemas globalistas voltados ao controle da tecnologia, mantendo a autonomia norte-americana como prioridade estratégica.
O cenário geopolítico revela um racha claro. Enquanto Washington aposta em um ecossistema restrito a parceiros de confiança para dominar a cadeia produtiva, Pequim defende o uso de sistemas de código aberto, permitindo que a tecnologia seja assimilada por qualquer organização, independentemente de fronteiras. Essa divergência coloca o multilateralismo em xeque.
Ettore Arpini, fundador da organização Plures, observa que a postura de Trump sinaliza um desinteresse em qualquer tipo de freio regulatório. Para o especialista, a resistência dos EUA vai na contramão de um movimento articulado por potências médias, que tentam estabelecer um padrão comum de governança internacional para mitigar os riscos da nova era digital.
O discurso de Trump também deixou claro que a velocidade é uma métrica de poder. Ao reiterar que a tecnologia será o pilar da próxima revolução industrial, ele garantiu que os EUA não irão sufocar seu próprio desenvolvimento. A lógica é simples: quem controlar a “superinteligência” — termo que o presidente pretende adotar oficialmente, descartando o adjetivo “artificial” por considerá-lo enganoso — sairá como o grande vencedor da disputa global.
Essa retórica, contudo, ignora alertas recentes. Líderes da indústria nos EUA chegaram a pedir uma desaceleração no ritmo de criação dos modelos mais avançados, temendo que a evolução ultrapasse os mecanismos de segurança. Paralelamente, o Banco de Compensações Internacionais (BIS) levanta dúvidas sobre a sustentabilidade econômica desse mercado. O temor é de que o excesso de capital investido em projetos com retornos incertos gere uma bolha, capaz de desestabilizar a economia global caso as expectativas de produtividade não se confirmem.
Para especialistas como o cientista brasileiro Miguel Nicolelis, a própria nomenclatura “inteligência” não passa de uma estratégia de marketing. A tentativa de sugerir capacidades humanas em sistemas automatizados serviria, na prática, apenas para valorizar os serviços oferecidos pelas gigantes do setor. Arpini reforça que a mudança de nome proposta por Trump possui um forte componente político: ao adotar “superinteligência”, o governo norte-americano tenta consolidar uma narrativa de supremacia que, segundo analistas, pode desviar a atenção do debate central. O ponto crucial, insistem os especialistas, não reside na definição semântica, mas nos níveis de autonomia, no poder de decisão sobre quem controla esses sistemas e quais serão seus efeitos concretos na sociedade.
