O fenômeno El Niño caminha para uma marca preocupante. De acordo com a secretária-geral da Organização Meteorológica Mundial, Celeste Saulo, existe a possibilidade real de que este episódio supere os padrões registrados nos últimos 40 anos, apresentando uma intensidade sem precedentes. O impacto direto dessa alteração climática será uma desestabilização severa nos regimes de chuva globais, forçando uma dualidade geográfica: enquanto algumas regiões enfrentarão secas prolongadas e severas, outras serão alvos de inundações catastróficas.
O alerta meteorológico chega em um momento de pressão sobre as políticas ambientais internacionais. Um documento divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma) desenha um cenário desanimador: mesmo nas projeções mais otimistas, a temperatura média do planeta deve subir entre 1,7°C e 1,8°C acima dos níveis pré-industriais até a metade deste século.
O abismo entre a intenção política e a realidade dos números é evidente. Embora a expansão de energias renováveis ganhe fôlego em várias nações, o corte de emissões de gases de efeito estufa está longe do necessário. Para frear o aquecimento conforme os parâmetros de segurança, seriam exigidas quedas de 18% nas emissões até 2030, saltando para 69% até 2040. Os planos nacionais vigentes, contudo, prometem recuos tímidos, variando entre 5% e 8% até o final desta década.
Sob a atual conjuntura, a trajetória aponta para um aquecimento de 2,8°C até o ano 2100. Caso as nações cumpram rigorosamente cada compromisso assumido, esse número cai para 2,6°C — ainda insuficiente diante do Acordo de Paris, que estabeleceu como meta ideal manter o aumento da temperatura global em 1,5°C.
António Guterres, secretário-geral da ONU, reconhece a gravidade do quadro, mas insiste que o fracasso parcial não justifica a desistência. Com a proximidade da COP31, na Turquia, o discurso oficial busca manter viva a esperança de retornar à meta de 1,5°C até o final do século, ainda que as chances sejam calculadas em 50% sob cenários de “ultrapassagem”.
O relatório é taxativo: as promessas climáticas renovadas desde o ano passado tiveram pouco impacto real na projeção final. O retorno aos limites desejados depende, essencialmente, de tecnologias de remoção de carbono em larga escala. A questão, porém, é que a viabilidade dessas soluções permanece uma incógnita, deixando o futuro climático atrelado a incertezas técnicas em um planeta que já sente os primeiros reflexos severos dessa instabilidade.
