O Ministério Público formalizou a denúncia contra sete pessoas envolvidas em um esquema de internações irregulares e violência extrema no norte de Minas Gerais. No centro da investigação, está o proprietário de estabelecimentos identificados como Clínica Assistencial Fortalecer e Instituto Feminino Fortalecer, apontado como autor de abusos sexuais recorrentes contra adolescentes que ocupavam as unidades entre 2023 e 2026.
O cenário descrito nas peças processuais revela um método de operação baseado na exploração. Nove adolescentes e quatro mulheres foram mantidas em locais de difícil acesso, estrategicamente escolhidos para frustrar a fiscalização. Embora o ingresso de muitas jovens ocorresse via internação compulsória custeada por cofres municipais, a legislação vigente veda o acolhimento dessa natureza em comunidades terapêuticas, que deveriam funcionar exclusivamente em regime de adesão voluntária.
A rotina das internas era marcada pela privação de liberdade e controle absoluto. Sem acesso a documentos ou meios de comunicação, as vítimas permaneciam sob constante vigilância, com contatos familiares restritos a uma vez por semana. O relato das investigações detalha um regime de terror: administração indiscriminada de psicotrópicos, imobilização em camas e submissão a trabalho forçado na produção de itens comercializados pelo grupo. A desobediência a essas ordens resultava em agressões físicas severas.
O principal suspeito, que já era alvo de apurações desde 2022, demonstrava agilidade em evitar o cerco policial. Em 2025, o grupo logrou êxito em transferir pacientes de uma unidade para outra pouco antes da chegada dos agentes, uma manobra típica de quem operava em constante reestruturação. Mesmo após interdições e fechamentos de unidades, o esquema se realocava para novos endereços.
A pressão sobre as vítimas não cessou após o início do trabalho das autoridades. Integrantes do grupo passaram a coagir as adolescentes e seus familiares, resultando, inclusive, na alteração de depoimentos prestados anteriormente. Além da violência sexual e do cárcere privado, a denúncia abrange acusações de tortura, importunação sexual, organização criminosa e desvio de verbas públicas.
A situação ainda desdobra-se em novas frentes investigativas. Inquéritos adicionais buscam esclarecer a responsabilidade dos envolvidos em pelo menos dois óbitos de pacientes, bem como identificar a participação de outros cúmplices no esquema. O Ministério Público mantém aberto o canal de denúncias para que ex-internas e familiares possam colaborar com novos elementos, garantindo o sigilo necessário por meio de canais especializados como o Disque 100 ou o Disque 181.
