Mais da metade das 812 pessoas credenciadas para o Mundial realizado nos Estados Unidos, México e Canadá acabou virando alvo de violência digital. No total, foram identificadas 240.676 mensagens agressivas direcionadas a esse grupo — das quais 20% tinham teor abertamente racista. Os dados foram apresentados pela Fifa nesta sexta-feira (9), véspera do Dia Mundial da Saúde Mental, celebrado neste sábado (10).
Para tentar conter a hostilidade, o sistema de proteção da entidade varreu 60,7 milhões de conteúdos veiculados em suas plataformas e nos perfis das seleções. A partir de mais de 17 milhões de publicações analisadas, o mecanismo de inteligência artificial bloqueou preventivamente 9,2 milhões de postagens — cerca de 15% do volume geral — antes que chegassem ao público. Outras 477.217 mensagens precisaram passar por revisão humana.
Em um dos casos mais severos registrados no levantamento, um único jogador — mantido sob anônimato — recebeu mais de 10 mil mensagens abusivas, sendo 40% delas de cunho racial. O atleta também enfrentou ataques homofóbicos, sexistas e transfóbicos. A onda de agressões contra ele se intensificou após comentários raciais feitos por uma figura pública repercutirem amplamente na rede.
A violência verbal se estendeu a grandes nomes do futebol. Durante a competição, a senadora paraguaia Celeste Amarilla utilizou o X para ofender o atacante francês Kylian Mbappé. A parlamentar chamou o atleta de “colonizado” e “feio”, afirmando que ele não sabia escrever e tentava se passar por francês — o capitão da França nasceu em Paris e é filho de pai camaronês e mãe de origem argelina.
A seleção da França foi a mais atingida pelos ataques virtuais, concentrando 33% de ofensas raciais. A Inglaterra também esteve no centro dos abusos, acumulando 21% de mensagens racistas e xenofóbicas combinadas. Em ambas as situações, os agressores questionavam a formação dos elencos por conta da pluralidade cultural dos jogadores.
O monitoramento registrou ainda que 15% das mensagens revisadas continham acusações de corrupção, voltadas em sua maioria contra a própria entidade organizadora. Ameaças de violência física responderam por 14% dos episódios, atingindo o pico após a vitória da Noruega sobre o Brasil por 2 a 1, nas oitavas de final. Postagens com teor xenofóbico somaram 12% do total.
“Por ocasião do Dia Mundial da Saúde Mental, reafirmamos o compromisso da Fifa de proteger a comunidade do futebol contra mensagens de ódio nas redes, com o apoio de tecnologias de última geração capazes de combater tanto os conteúdos criados por pessoas quanto as imagens geradas por inteligência artificial”, declarou o presidente da organização, Gianni Infantino.
