Caracas, Venezuela – Nove meses após a captura de Nicolás Maduro pelo exército norte-americano, Caracas deu uma guinada diplomática surpreendente. A presidente interina, Delcy Rodríguez, oficializou na sexta-feira (28) um acordo estrutural com os Estados Unidos voltado à exploração petrolífera. O pacto prevê a modernização de 17 campos estratégicos, onde se estima a existência de 65 bilhões de barris de petróleo.
Os números apresentados pela gestão interina são ambiciosos. A expectativa é que o protocolo atraia investimentos superiores a US$ 100 bilhões, gerando aos cofres públicos receitas fiscais que podem ultrapassar a casa dos US$ 209 bilhões. Para Rodríguez, o movimento representa o início de um capítulo decisivo na reconstrução da infraestrutura de hidrocarbonetos da nação, que detém cerca de 17% da oferta global de crude, totalizando reservas mapeadas de 303 bilhões de barris.
Do lado de Washington, a motivação é urgente. Donald Trump classificou o entendimento como o maior acordo de petróleo da história mundial, uma resposta direta à escassez interna. Com as reservas estratégicas norte-americanas abaixo dos 300 milhões de barris em agosto — uma queda de 100 milhões desde o início de 2026 — e a guerra no Irã se prolongando pelo sexto mês, a pressão sobre os preços da gasolina tornou-se um desafio político incontornável.
Apesar do potencial geológico, o setor venezuelano opera atualmente com limitações severas, respondendo por apenas 1% da produção mundial. Dados divulgados na segunda-feira (24) pela presidência interina indicam uma produção diária de 1,23 milhão de barris, patamar mais alto desde fevereiro de 2019, que agora serve de base para a nova meta de expansão.
O acerto, contudo, reaviva controvérsias sobre os eventos que antecederam a mudança de comando em Caracas. Maduro e sua esposa, Cilia Flores, seguem detidos em um presídio federal no Brooklyn, Nova York. Eles foram retirados do país pelo exército norte-americano em 3 de janeiro de 2026, sob a acusação de liderarem o suposto cartel De Los Soles, tese que ainda desperta ceticismo entre especialistas em tráfico internacional de drogas.
A operação, comparada por analistas à invasão do Panamá em 1989 e à prisão de Manuel Noriega, gerou fortes críticas diplomáticas por parte do Brasil e de outras nações. A rapidez com que o protocolo de cooperação foi assinado após a retomada das relações diplomáticas, em março, sustenta suspeitas de articulações prévias entre as autoridades dos dois países.
Para o governo interino, o momento é de foco no crescimento econômico. O plano contempla não apenas a recuperação técnica da indústria, mas também a estabilização de mercados internacionais e a segurança energética regional, sob a promessa de que a riqueza petrolífera voltará a impulsionar o bem-estar e o rendimento dos trabalhadores venezuelanos.
