Argentina, Argentina – O cenário empresarial argentino atravessa um momento de crise severa. Desde a posse de Javier Milei, em novembro de 2023, até junho de 2026, o país registrou o encerramento de 31,3 mil companhias. O volume de baixas equivale a 6,1% de todas as empresas registradas e, segundo levantamentos do centro de pesquisas Fundar, a intensidade do fechamento de negócios é comparável apenas aos períodos mais agudos da pandemia de Covid-19.
A retração é vasta, atingindo 14 dos 18 setores monitorados e impactando 23 das 24 províncias. Neuquém figura como a única exceção, sustentada pelo dinamismo das exportações de gás natural provenientes de Vaca Muerta. Em contrapartida, a indústria nacional encolheu 2,6% no acumulado de 12 meses encerrado em julho. O setor de equipamentos médicos e eletrônicos lidera o prejuízo, com uma queda acentuada de 19,1% no mesmo intervalo, conforme dados do Indec.
O encerramento de atividades alcançou nomes com décadas de trajetória. Entre as 709 empresas que baixaram as portas apenas no último mês, estão a metalúrgica Din S.A. e a têxtil Clan Issime. Esta última, que chegou a manter uma rede com mais de uma centena de pontos de venda, encerrou suas operações contando com apenas nove colaboradores.
No mercado de trabalho, o impacto é direto. O Centro de Economia Política Argentina (Cepa) contabiliza a extinção de 245,6 mil postos formais no setor privado entre novembro de 2023 e junho de 2024. Embora tenha havido um salto de 169 mil trabalhadores autônomos, o efeito líquido aponta para a precarização das relações laborais. O resultado é o avanço do desemprego, que atingiu 7,9% da população economicamente ativa no primeiro semestre de 2026.
Essa contração industrial e social ocorre simultaneamente ao freio na escalada dos preços. A inflação anual, que chegou a 289% em abril de 2024, recuou para 33,5% em agosto deste ano. Para Paulo Gala, economista da FGV-SP, a estabilidade é artificial. Ele aponta que a combinação de corte de gastos, dívidas com o FMI e uma moeda sobrevalorizada, embora contenha a alta de preços, sufoca a produção industrial e compromete a sustentabilidade do crescimento a longo prazo.
Mesmo publicações internacionais que tradicionalmente apoiam agendas liberais começam a emitir sinais de alerta. A revista The Economist, em editorial recente, ponderou que, embora a inflação esteja sob controle, o país carece de crescimento real e sofre com a erosão dos salários e dos empregos com carteira assinada.
Em sua defesa, Milei mantém a postura combativa. Em agosto, ao rebater críticas sobre o desempenho macroeconômico, o presidente citou o crescimento de 4,4% do PIB em 2025 como prova da eficácia de suas reformas. Para ele, o fechamento de empresas é um ajuste necessário, declarando que o país deve se livrar de um modelo de “capitalismo de compadrio” que, segundo sua visão, depende excessivamente da tutela estatal para sobreviver.
