Santiago, Chile – O Chile atravessa um momento de instabilidade econômica acentuada. Com apenas sete meses de mandato, o presidente José Antonio Kast lida com números negativos que desafiam suas promessas de campanha: o Produto Interno Bruto (PIB) encolheu 0,3% no terceiro trimestre de 2026, consolidando uma trajetória de queda após a retração de 0,2% observada nos três meses anteriores. O desemprego, por sua vez, atingiu a marca de 9,6%, uma alta de 1 ponto percentual em comparação ao mesmo período de 2025.
Para tentar conter o desgaste, o governo lançou, no fim de setembro, um pacote de investimentos de 1,3 bilhão de pesos chilenos. A medida busca estimular a criação de postos de trabalho por meio de obras de infraestrutura e linhas de crédito para empresas, em uma tentativa de imprimir ritmo a uma economia que perdeu tração. O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para baixo a perspectiva de crescimento do país: o otimismo de 1,8%, previsto em julho, caiu para apenas 0,6% na estimativa de outubro.
O cenário é agravado pela crise no setor de mineração. O cobre, motor das exportações nacionais, sofre com problemas de infraestrutura tecnológica, exaustão de jazidas e impactos de eventos climáticos. De janeiro a agosto deste ano, a produção ficou 8% abaixo do registrado no mesmo período de 2025, segundo dados da Câmara Mineira do Chile. Para o economista Fernando Henrique Lemos Rodrigues, professor da UFRRJ, o corte severo de gastos imposto pelo Executivo, aliado à fragilidade desse setor, gera um freio perigoso na economia.
A estratégia de austeridade de Kast prevê um enxugamento de 3% nas despesas estatais. Informes governamentais já apontam uma economia de 2 trilhões de pesos, cerca de 0,6% do PIB. O impacto financeiro, contudo, é sentido de forma desigual: ministérios como Saúde, Habitação e Educação absorveram os cortes mais profundos. O jornal The Clinic estimou que a redução de verbas ultrapassou US$ 1,4 bilhão, afetando diretamente áreas sociais.
A política de reduzir impostos corporativos, na tentativa de espelhar modelos adotados nos Estados Unidos e na Argentina, tem gerado críticas. Segundo analistas, a medida não tem se traduzido em investimentos produtivos, mas sim na alocação de recursos em aplicações financeiras. Paralelamente, o governo optou por não subsidiar os combustíveis diante da alta global, repassando o custo inflacionário ao consumidor final.
A tensão social é crescente. Com cortes previstos também para o orçamento de 2027, entidades como a Fundação Horizonte Cidadão alertam que 48 programas voltados às populações de baixa renda estão sob risco. Estudantes têm ocupado as ruas, e o governo responde com repressão policial. Após sete meses de uma agenda focada em cortes e austeridade, Kast enfrenta agora taxas de desaprovação que superam os 60%.
