Agentes das polícias Civil e Militar de São Paulo mataram 142 pessoas durante o exercício de suas funções nos três primeiros meses de 2026. O número representa um acréscimo de cinco óbitos na comparação com o mesmo período de 2025. Se somadas as ocorrências envolvendo policiais fora de serviço, o total de vítimas sobe de 29 para 33, conforme dados apurados pela Agência Brasil a partir de relatórios do Ministério Público do Estado de São Paulo.
Causas e preocupações institucionais
O ouvidor da Polícia do Estado de São Paulo, Mauro Caseri, aponta que o cenário atual reflete uma falha na preservação da vida como diretriz central da segurança pública. Segundo ele, o adoecimento mental da tropa, somado a baixos salários e à sobrecarga de trabalho gerada por atividades extras, cria um ambiente de risco. Caseri defende que a instituição precisa transitar de uma lógica de confronto para uma estratégia focada na mediação de conflitos.
Na mesma linha, o presidente do Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, Adilson Santiago, classificou a situação como uma crise na segurança pública. O representante aponta que o aumento da violência policial atinge desproporcionalmente populações negras e residentes em periferias. Santiago questiona a eficácia da formação dos agentes e a ausência de um comando voltado para uma atuação mais humanizada perante os desafios sociais contemporâneos.
Evolução dos indicadores de letalidade
Após uma queda de 63,6% entre 2019 e 2022, os índices de letalidade policial em serviço voltaram a subir a partir de 2023. O primeiro ano da atual gestão estadual registrou 357 mortes, seguidas por um salto para 653 em 2024 e uma nova alta para 703 registros no ano seguinte. Especialistas reforçam que esses números não devem ser tratados como efeitos colaterais inevitáveis, mas como indicadores de um problema estrutural que demanda intervenção imediata.
Para mitigar o problema, o ouvidor sugere a revisão rigorosa dos protocolos de uso da força, a fiscalização efetiva das câmeras corporais e a implementação de políticas contínuas de saúde mental para os agentes. O objetivo é evitar a consolidação de um modelo que, na visão de especialistas, acaba por ampliar a violência em vez de promover a segurança da população.
Posicionamento oficial da Secretaria de Segurança Pública
Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo afirmou que todas as mortes decorrentes de intervenção policial passam por rigorosa investigação sob o acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário. A pasta ressaltou que tem investido em capacitação e na aquisição de equipamentos de menor potencial ofensivo, com aportes superiores a 27 milhões de reais.
O governo estadual destacou ainda a expansão do uso de câmeras corporais, que devem chegar a 15 mil unidades, além do programa Muralha Paulista. O sistema, que utiliza tecnologia e inteligência integrada, conta atualmente com mais de 125 mil câmeras em operação e busca aumentar a eficiência das ações policiais para reduzir a necessidade de uso da força em campo.
