Rio de Janeiro (RJ) – Caminhar por vias mal iluminadas, recusar ofertas de trabalho por causa do deslocamento ou simplesmente abrir mão de momentos de lazer. Essas decisões não são casuais; elas compõem um cálculo de sobrevivência que dita a vida de mulheres na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. O levantamento “Rotina Calculada”, conduzido pela ONG Movimentos em parceria com o Instituto Fogo Cruzado e o Instituto Update, detalha como a insegurança pública molda — e restringe — o direito de ir e vir dessa população.
O estudo baseou-se em relatos de vinte mulheres, abrangendo recortes distintos de raça, classe social e moradia. A conclusão é nítida: enquanto o medo é uma constante, a capacidade de mitigar seus efeitos depende diretamente da conta bancária. Mulheres com maior poder aquisitivo conseguem comprar segurança, trocando trajetos perigosos por corridas de aplicativo ou táxis, quando não optam por hospedagens alternativas. Para quem vive na base da pirâmide econômica, o custo de transporte restringe qualquer alternativa. Caminhar por trechos desertos torna-se a única opção, muitas vezes resultando na desistência de oportunidades profissionais que exijam circulação em horários críticos.
A percepção de perigo é alimentada majoritariamente pela presença de homens desconhecidos nas ruas. No entanto, a estratégia de proteção revela uma dependência de figuras masculinas do círculo íntimo — pais, irmãos ou amigos — para garantir o retorno seguro para casa ou o acompanhamento em pontos de ônibus. Existe um conflito latente nessa dinâmica. Embora a companhia masculina funcione como um “escudo”, a necessidade de estar sempre acompanhada para sentir-se minimamente protegida é vista como um limitador da própria liberdade e autonomia.
A transfobia adiciona uma camada de complexidade insuportável a esse cenário. Mulheres trans relatam que o medo de agressões extrapola o espaço público aberto, alcançando ambientes de lazer, como academias. O estigma e a possibilidade de violência impedem que esses espaços sejam frequentados, restringindo o acesso a atividades básicas de saúde e socialização.
O impacto dessa rotina vigiada é profundo. Desde a escolha do vestuário até os horários em que se permite sair de casa, cada movimento é ponderado. O levantamento defende que o combate à criminalidade não pode se limitar apenas aos índices de ocorrências. A segurança pública precisa incorporar os dados sobre essas estratégias de sobrevivência para desenhar políticas mais eficazes e direcionadas. O objetivo é claro: garantir que as mulheres ocupem o espaço urbano sem que a livre circulação dependa de um cálculo contínuo sobre o risco de estar viva na cidade. Informações detalhadas do estudo estão disponíveis no site oficial da organização.
