Brasília (DF) – O cenário político brasileiro para o próximo pleito traz uma marca inédita de representatividade. Ao analisar os registros junto ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) até a última segunda-feira, 17 de junho, contabilizaram-se 191 candidaturas de pessoas que se declaram pertencentes a povos originários. O número estabelece um recorde desde que o órgão passou a exigir a autodeclaração de cor e raça, em 2014.
Embora esse contingente represente menos de 1% do universo total de 20.506 registros enviados ao TSE, a tendência de crescimento é inegável. Em comparação com o pleito de 2022, houve um avanço de 3%. Se voltarmos o olhar para 2014, o salto é expressivo: um aumento de 125%, saltando de 85 para 191 postulantes.
A distribuição dessas candidaturas reflete a pluralidade geográfica e cultural do País. Representantes de 64 etnias diferentes disputam cargos que vão de deputado estadual — somando 99 nomes — a governador, com 3 pleiteantes. Na lista de maior peso entre os grupos étnicos, o povo Macuxi, de Roraima, lidera com 13 candidaturas, seguido pelos Guarani Kaiowá, de Mato Grosso do Sul, com 12.
A força política dessas candidaturas espalha-se por 26 das 27 unidades da federação e abrange todos os seis biomas brasileiros. A Amazônia Legal concentra a maior parte dessa representatividade, reunindo 80 registros, o equivalente a 42% do total. O restante se divide entre as regiões Sudeste, com 36 concorrentes; Nordeste, com 34; Centro-Oeste, com 27; e Sul, com 14.
No recorte de gênero, as mulheres indígenas ocupam um lugar de destaque. Embora tenha havido uma leve oscilação numérica, caindo de 85 em 2022 para 84 neste ano, elas compõem 44% das candidaturas indígenas — um percentual bem acima da média nacional de 35% entre o total de candidatos. Desde 2014, o número de mulheres indígenas disputando cargos nas eleições gerais subiu cerca de 190%.
Para as lideranças do movimento, o fenômeno não é circunstancial. Trata-se do reflexo de uma resistência histórica que busca transformar a ocupação de espaços de poder em uma ferramenta de preservação de territórios e de influência nas decisões nacionais. Dentro dessa articulação, 54 candidaturas recebem apoio direto por serem vinculadas a um projeto político coletivo, alinhado às demandas das organizações regionais.
A estratégia central dessas campanhas, batizada sob o lema Nosso Território, Nossa Vida, visa deslocar a pauta indígena para o epicentro das discussões sobre o futuro da nação. Com o aumento de candidatos ao cargo de deputado federal — que subiu de 59 na eleição passada para 75 agora — o movimento aposta na construção de uma bancada que leve a voz dos territórios diretamente para o Congresso Nacional.
