Bahia (BA) – O peso do histórico familiar, marcado por tragédias, forçou uma mudança nos rumos políticos na Bahia. Jurandy Pacífico, filho da ialorixá Mãe Bernadete, comunicou a desistência de sua candidatura ao cargo de deputado federal. O anúncio encerra, por ora, um projeto que buscava ecoar as demandas das comunidades tradicionais no Congresso Nacional.
A decisão, classificada pelo próprio candidato como dolorosa, foi formalizada via carta enviada à Justiça Eleitoral. O motivo central é a vulnerabilidade física. Para Jurandy, que é o único filho vivo de Mãe Bernadete, a campanha eleitoral representaria uma exposição a riscos que sua família considera insustentáveis. O assassinato de seu irmão, Binho do Quilombo, também vítima da violência ligada à luta pelos direitos territoriais, serve como um lembrete constante da periculosidade que envolve o ativismo na região.
Ao explicar o recuo, Jurandy afirmou ter ouvido o apelo de parentes e companheiros de movimento. “O sábio não é aquele que fala, é aquele que escuta”, declarou, indicando que a decisão visa garantir sua sobrevivência. Embora tenha retirado o nome da disputa, o ex-candidato assegurou que o afastamento das urnas não significa o fim de sua militância política. Ele reforçou que seu compromisso com os ideais quilombolas permanece inalterado, mesmo fora do processo eleitoral.
A notícia foi recebida com pesar no governo estadual. Felipe Freitas, secretário de Justiça e Direitos Humanos da Bahia, lamentou que um defensor de direitos humanos tenha se sentido intimidado a ponto de abandonar a corrida por uma cadeira na Câmara dos Deputados. Segundo o secretário, a Polícia Militar da Bahia mantém um esquema de segurança permanente voltado à proteção de Jurandy e de seu sobrinho desde a morte de Mãe Bernadete.
Freitas ressaltou que o Estado busca garantir que a participação política ocorra de forma livre e desimpedida, ainda que reconheça a gravidade do cenário de ameaças. Jurandy, por sua vez, mantém sua posição sobre o passo dado. Ele argumenta que, nesta conjuntura, priorizar a vida é, também, um ato de resistência e de preservação de seu legado.
A trajetória de luta da família Pacífico tornou-se um símbolo nacional das dificuldades enfrentadas por lideranças quilombolas. A saída de Jurandy da disputa eleitoral escancara, mais uma vez, o clima de apreensão que cerca quem defende pautas de terra e direitos humanos em áreas conflagradas pela violência. Mesmo longe das urnas, a trajetória de Jurandy segue sob o olhar atento de autoridades e movimentos sociais, em um ambiente onde o medo, infelizmente, ainda dita o ritmo do cotidiano.
