O universo das 12 candidaturas à Presidência da República revela uma contradição persistente: as mulheres aparecem com frequência nos planos de governo, mas quase sempre posicionadas como destinatárias de auxílio e nunca como protagonistas da gestão pública. Uma análise técnica detalhada mapeou que o debate eleitoral se concentra em quatro pilares — violência, saúde, trabalho e políticas de cuidado —, deixando lacunas profundas em questões de representação real.
A diretora executiva do Instituto Update, Carol Althaller, observa que, embora os programas capturem problemas que impactam o dia a dia feminino, eles evitam transformar essas mesmas mulheres em sujeitos de decisão. A pesquisa considerou apenas pautas com menções explícitas ao público feminino, ignorando políticas universais. O resultado expõe um problema estrutural: a ausência de detalhamento, metas e cronogramas de implementação.
Poder e representatividade
O descompasso entre o desejo do eleitorado e o que prometem os candidatos é nítido. Enquanto 72% das mulheres ouvidas no estudo Mulheres em Diálogo (2025) defendem maior presença feminina na política, apenas um dos 12 planos de governo traz propostas concretas para o combate à violência política de gênero ou estratégias de formação de lideranças. Um segundo candidato aparece na lista apenas por prometer a indicação de mulheres para o STF.
O recorte da violência e segurança
A violência contra a mulher é o tema que domina as páginas dos programas. Três quartos dos documentos trazem medidas contra o feminicídio ou proteção às vítimas. A abordagem, contudo, é predominantemente punitiva ou focada em redes de assistência. A experiência urbana de insegurança — o medo que impede 79% das mulheres de circularem à noite — raramente é tratada sob a ótica da mobilidade ou da iluminação pública, pontos essenciais para o cotidiano.
Autonomia econômica e o peso do cuidado
O cenário de convergência aparente surge no tema da autonomia econômica, presente em 58% dos planos. No entanto, a definição do que significa essa independência varia drasticamente: de um lado, candidatos focam em crédito e empreendedorismo individual; de outro, propostas focadas em direitos trabalhistas, equiparação salarial e proteção social. Essa mesma fragmentação ocorre nas políticas de cuidado.
A oferta de creches, mencionada por 58% dos candidatos, é o ponto de contato entre a vida privada e o mercado de trabalho. Para alguns, o Estado deve atuar como infraestrutura de suporte para liberar o tempo feminino; para outros, o foco reside na manutenção das responsabilidades familiares e na proteção da estrutura tradicional. O instituto conclui que, mais do que falta de temas, o que falta aos planos de governo é uma visão articulada que compreenda a mulher como um agente central na construção das políticas do país, e não apenas como um segmento de demanda social.
