O desafio de erradicar a hepatite B como ameaça à saúde pública mundial até 2030 ganhou um novo capítulo com a participação brasileira em uma frente de investigação global. Duas universidades públicas, a Federal do Espírito Santo (Ufes), por meio do Hospital Universitário Cassiano Antônio Moraes (Hucam), e a Universidade de São Paulo (USP), uniram-se a instituições de Estados Unidos, Índia, Senegal e Uganda em um esforço colaborativo coordenado pela Faculdade de Medicina da Universidade Johns Hopkins.
O foco do consórcio, estabelecido inicialmente em 2023, suspenso em 2024 e retomado neste ano, é investigar o comportamento do vírus em nível celular. A metodologia combina a pesquisa básica com a prática clínica, acompanhando cerca de 600 pacientes — sendo 150 em cada país integrante — por um período de quatro anos e meio. No Brasil, a equipe liderada por Tânia Reuter, referência no estudo da patologia, já deu início ao recrutamento. Desde julho, 40 voluntários foram selecionados e o objetivo é atingir a meta de 75 participantes brasileiros até o final deste ano.
O monitoramento detalhado abrange pessoas infectadas apenas pelo vírus da hepatite B e aquelas com coinfecção por HIV. A expectativa é identificar por que o patógeno apresenta evoluções distintas em diferentes organismos. A ciência busca desvendar quais marcadores genéticos conferem proteção contra um agravamento rápido e quais partículas virais atuam como preditores reais de resposta terapêutica.
De acordo com Reuter, o propósito é encontrar alvos biológicos que possibilitem o desenvolvimento de novos fármacos, como imunomoduladores e imunoestimuladores. A urgência da medida se justifica pela gravidade da infecção: a hepatite B é um dos principais gatilhos para o desenvolvimento de hepatocarcinoma, o câncer primário de fígado, além de cirrose. O projeto, com cronograma previsto até meados de 2027, pretende mitigar justamente a progressão para esses quadros fatais.
A hepatite B permanece como um problema crítico de saúde pública global. Dados da OMS apontam que cerca de 240 milhões de pessoas convivem com a infecção crônica. No Brasil, o Ministério da Saúde registrou 276,6 mil casos confirmados entre 2000 e 2022. Com um grau de infecciosidade estimado em 100 vezes superior ao do HIV, o vírus é transmitido pelo contato com sangue, por via sexual ou de forma vertical, durante a gestação e o parto.
Enquanto a cura definitiva não é alcançada, as autoridades de saúde reforçam que a vacinação continua sendo a ferramenta mais eficaz. Disponível no SUS para todas as faixas etárias, o imunizante segue um esquema de quatro doses para crianças — ao nascer e aos 2, 4 e 6 meses — e três doses para o público adulto. O uso de preservativos e a não partilha de itens perfurocortantes seguem como as principais recomendações preventivas.
