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Mola gestacional: como um erro na fecundação pode evoluir para câncer de placenta
Saúde

Mola gestacional: como um erro na fecundação pode evoluir para câncer de placenta

Última atualização: 26 de Julho, 2026 22:03
Por
Erre Soares
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5 Min Leia
📷 Tânia Rêgo/Agência Brasil
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A confirmação da gravidez parecia o fim de uma longa espera para a terapeuta ocupacional Daiana Nascimento. Mas o sonho durou pouco. Em apenas três dias, ela experimentou a transição abrupta entre a maior alegria de sua vida e a dor da perda. Menos de um mês depois, o diagnóstico se transformou em algo ainda mais complexo: um câncer decorrente daquela gestação interrompida. O que parecia ser uma gravidez comum era, na verdade, uma doença trofoblástica gestacional, conhecida como mola.

Esse tipo de tumor surge por uma falha na fecundação. Na mola incompleta, dois espermatozoides — ou um com DNA duplicado — fertilizam um óvulo saudável, gerando uma placenta deformada e um embrião com anomalias incompatíveis com a vida. Na mola completa, o óvulo não carrega material genético, e a união resulta apenas em tecido placentário doente, sem embrião. Nos dois casos, a interrupção da gravidez é inevitável para evitar hemorragias uterinas, descontrolos na tireoide e picos de pressão arterial.

O risco de evolução para tumores malignos

O maior perigo reside na evolução para o coriocarcinoma, o câncer de placenta. Isso ocorre quando as células anômalas invadem o útero. Embora a chance de malignidade seja inferior a 5% na mola parcial, o índice salta para 20% — uma em cada cinco pacientes — quando a mola é completa. Em situações graves, há risco de metástase, sobretudo pulmonar. No Brasil, a incidência é alta: atinge uma a cada 200 ou 400 gestações. Nos Estados Unidos, a proporção é de uma para cada mil, e na Inglaterra despenca para uma a cada duas mil. Investigam-se fatores genéticos, imunológicos e alimentares para essa discrepância, mas ainda não há respostas definitivas.

A descoberta costuma ocorrer em ultrassons de rotina. O tratamento exige rigor extremo. Na Maternidade Escola da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), que abriga o terceiro principal centro de atendimento do mundo para essa patologia, cerca de 80 mulheres são atendidas semanalmente pelo SUS. O acompanhamento em unidades especializadas é crucial: estudos do centro fluminense apontam que o risco de morte é até vinte vezes maior quando o monitoramento é feito fora de um serviço de referência.

Após a retirada cirúrgica do tecido por aspiração, inicia-se um rastreamento minucioso. O principal aliado médico é o hormônio HCG, o mesmo que confirma a gestação. Aqui, ele funciona como marcador tumoral. Se os níveis de HCG não caírem progressivamente após o esvaziamento uterino, significa que a doença permaneceu ativa e evoluiu para câncer. O tratamento exige quimioterapia, mas a taxa de cura é elevada e, uma vez recuperadas, as pacientes podem engravidar novamente.

Esse é o plano de Daiana e de seu marido, Lucas Felipe, que aguardam o período de segurança para tentar uma nova gestação. Para outras mulheres, contudo, o caminho exige decisões definitivas. Pacientes mais velhas ou que já completaram suas famílias podem precisar de uma histerectomia, a remoção do útero. Foi o caso de Mônica Rosa do Amaral Pelizari. Diagnosticada aos 45 anos após um aborto espontâneo, ela enfrentou o câncer de placenta e a retirada do órgão. Mônica relata que o pavor inicial deu lugar a um processo mais leve graças ao apoio familiar e ao suporte recebido na unidade carioca.

O impacto emocional desse diagnóstico afeta toda a estrutura familiar. A médica Gabriela Paiva salienta que as pacientes chegam fragilizadas pela perda e pelo medo, necessitando de suporte psicológico constante para compreender que o problema ocorre ao acaso e não há culpa. Além do peso emocional, há barreiras práticas. Daiana, que mora em São Pedro da Aldeia, a 141 quilômetros do Rio de Janeiro, enfrentava viagens longas que consumiam dias inteiros de transporte, afetando sua rotina de trabalho. A rede de apoio mútuo criada entre as próprias pacientes nas salas de espera ajuda a mitigar a solidão de encarar uma patologia tão desconhecida.

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