O cenário é preocupante: a prevalência de obesidade entre jovens saltou de 2% para 8% nas últimas três décadas. Diante desse crescimento, a Organização Mundial da Saúde (OMS) apresentou, nesta quarta-feira (7), o seu primeiro guia estruturado voltado exclusivamente ao combate à obesidade em crianças e adolescentes. O documento busca oferecer um norte clínico diante de um problema que já atinge 170 milhões de pessoas entre 5 e 19 anos ao redor do globo.
A divisão por faixas etárias mostra o tamanho do desafio: são 70 milhões de crianças entre 5 e 9 anos e 100 milhões de adolescentes entre 10 e 19 anos vivendo com o diagnóstico. A entidade enfatiza que a obesidade não é um aspecto isolado, mas uma doença crônica e recorrente, capaz de antecipar o surgimento de diabetes tipo 2 e problemas cardiovasculares ainda nos primeiros anos de vida.
Além do impacto no metabolismo, o guia reconhece os danos psicológicos causados pelo estigma e pelo bullying. A saúde mental, aliás, ganha espaço central nas recomendações. Quadros de depressão, ansiedade e baixa autoestima não devem ser vistos como meras consequências, mas como fatores que retroalimentam o sedentarismo e os hábitos alimentares desequilibrados. A orientação é que médicos tratem o físico e o emocional simultaneamente, sempre com o envolvimento direto da família.
Para o tratamento, a recomendação prioriza intervenções que alterem o estilo de vida, como reeducação alimentar e prática de exercícios, preferencialmente dentro de programas multimodais. O uso de saúde digital é aceito, desde que sob supervisão atenta de pais ou responsáveis. Quanto ao tratamento farmacológico, o cenário é restrito. Cirurgias bariátricas e o uso de dispositivos para perda de peso são vetados para crianças de até 9 anos.
Já para adolescentes entre 10 e 19 anos, o acesso a medicamentos aprovados — incluindo as conhecidas canetas emagrecedoras — só deve ser cogitado quando o protocolo de mudanças comportamentais supervisionadas falhar. Em casos de obesidade severa, a cirurgia bariátrica torna-se uma opção, porém sob critérios rigorosos.
O documento reconhece, contudo, que o atendimento médico clínico é insuficiente para estancar a crise. A solução estrutural exigiria transformações nas políticas públicas, tornando o acesso a dietas saudáveis e espaços para atividade física menos onerosos e mais viáveis. Questões como planejamento urbano, transporte público e sistemas de proteção social aparecem como pilares necessários para proteger o crescimento e o bem-estar das futuras gerações.
