San Jose, Costa Rica – O ambiente de testes científicos no país vive um momento de forte expansão. Entre 2025 e o primeiro semestre de 2026, o Brasil saltou da 18ª para a 12ª posição no ranking mundial de pesquisas clínicas, motivado pelo vigor da Lei 14.874. A projeção de especialistas e representantes farmacêuticos reunidos no fórum Saúde como Investimento, realizado entre 6 e 8 de outubro em San Jose, na Costa Rica, é alcançar em breve o top 10 global, impulsionado por aportes previstos de mais de R$ 2 bilhões anuais.
Sancionada em maio de 2024 e regulamentada pelo governo federal em outubro de 2025, a chamada Lei de Pesquisa Clínica levou quase ten anos em tramitação no Congresso Nacional. Antes restrito a diretrizes pontuais do Conselho Nacional de Saúde e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o setor ganhou regras definitivas. Com a criação do Sistema Nacional de Ética em Pesquisa com Seres Humanos, o fluxo burocrático foi reorganizado: a emissão do parecer ético agora tem limite de 30 dias úteis, enquanto a validação da Anvisa deve ocorrer em até 90 dias úteis.
Agilidade nas etapas e atração de recursos
A principal mudança operacional foi a possibilidade de realizar as análises ética e sanitária de forma simultânea. Em testes multicêntricos — aqueles conduzidos em diferentes cidades ao mesmo tempo —, a checagem por um único comitê acreditado simplificou trâmites que antes levavam mais de um ano. A desburocratização manteve o rigor regulatório da Anvisa e abriu espaço para o recebimento de ensaios de Fase 1 e Fase 2, focados na segurança inicial dos compostos. Apenas a multinacional Roche prevê aplicar R$ 590 milhões por ano no país em estudos voltados para Alzheimer, Parkinson, câncer de mama, lúpus e novas terapias para obesidade.
Descentralização e integração regional
Os investimentos também visam descentralizar a infraestrutura de inovação, historicamente concentrada no Sul e no Sudeste. Ao capacitar laboratórios e equipes nas regiões Norte e Nordeste, o setor ganha acesso à vasta diversidade genética e social da população. Esse movimento atua em sintonia com o Programa Nacional de Inovação em Saúde, lançado em julho pelo governo federal para aproximar a produção científica das necessidades do Sistema Único de Saúde (SUS).
O desafio de estruturar a área de testes repercute em toda a América Latina. Para Mario Urcuyo, diretor estratégico da Fundação de Pesquisa e Inovação da Costa Rica, qualificar os centros regionais é indispensável para criar carreiras específicas e diminuir a dependência em relação aos Estados Unidos e à Europa. Na mesma linha, a pesquisadora Fedra Irazoque, do Centro Médico Nacional 20 de Novembro, do México, defende uma harmonização regulatória entre os países latinos, lembrando que os voluntários participantes — mesmo os do grupo de controle — recebem os melhores tratamentos disponíveis antes de migrarem para a nova molécula em teste.
