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Radiografia das hepatites virais no Brasil revela desafios para meta de eliminação em 2030
Saúde

Radiografia das hepatites virais no Brasil revela desafios para meta de eliminação em 2030

Última atualização: 3 de Agosto, 2026 17:11
Por
Erre Soares
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4 Min Leia
📷 Tânia Rêgo/Agência Brasil
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São Paulo (SP) – Um levantamento abrangente, conduzido por pesquisadores do Einstein, consolidou a realidade das hepatites virais no Brasil ao analisar 200 estudos científicos publicados entre 2013 e 2024. A investigação, que cruzou dados de mais de 14,5 milhões de brasileiros, integra o projeto de Caracterização de Hepatites Virais em Populações Vulnerabilizadas, iniciativa ligada ao Proadi-SUS. O material agora disponível, publicado na revista PLOS ONE, fornece insumos técnicos para que o país tente cumprir o compromisso global de eliminar essas patologias como problema de saúde pública até o fim desta década.

Embora as variantes B e C recebam mais atenção por sua capacidade de cronificar, o cenário brasileiro é complexo e exige olhares atentos a formas distintas de transmissão. João Renato Rebello Pinho, médico do Departamento de Patologia Clínica do Einstein e coordenador da análise, aponta uma mudança de comportamento significativa no caso da hepatite A. Antes associada quase exclusivamente à precariedade sanitária e à ingestão de água ou alimentos contaminados, a enfermidade registrou um movimento de retorno via transmissão sexual oral/anal, afetando inicialmente grupos de homens que fazem sexo com homens, mas atingindo progressivamente outros perfis populacionais.

O especialista desmistifica o contágio casual em ambientes públicos, reforçando que a transmissão de pessoa a pessoa requer proximidade íntima ou falhas graves de higiene, como a falta de lavagem das mãos após o uso do banheiro. Enquanto no Norte e Nordeste a hepatite A ainda circula pelo ciclo fecal-oral tradicional, no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a falta de vacinação gratuita para maiores de 18 anos tem deixado lacunas importantes na prevenção.

Quanto às formas B e C, o foco recai sobre o sexo desprotegido, o compartilhamento de instrumentos perfurocortantes em usuários de drogas injetáveis e a transmissão vertical. Pinho destaca, contudo, um sucesso notável do SUS: a quase erradicação da transmissão de hepatite B de mãe para filho. Se a hepatite B dispõe de vacina eficaz, a tipo C, apesar de não possuir imunizante, conta atualmente com tratamentos capazes de curar mais de 95% dos pacientes, mudando radicalmente o prognóstico da doença.

Em paralelo, a hepatite D, ou Delta, permanece sob um manto de invisibilidade. Acometendo majoritariamente populações ribeirinhas na Amazônia, a doença é intrinsecamente ligada à hepatite B — ninguém contrai o vírus Delta sem ser portador do vírus B. Em áreas isoladas, a coinfecção pode levar a quadros fulminantes, cirrose e câncer de fígado com maior rapidez, transformando-a em um desafio logístico e assistencial severo para o sistema público.

Por fim, a hepatite E surge como um enigma zoonótico. No Brasil, o vírus circula entre animais, especialmente suínos, configurando um risco que exige a abordagem de Saúde Única, integrando o cuidado humano ao controle sanitário animal. A prevalência observada na Região Sul, onde a suinocultura é pujante, é um indicativo do alcance dessa via de transmissão.

O diagnóstico das populações mais vulneráveis traz dados preocupantes: entre os encarcerados, a soroprevalência da hepatite A chega a 88,1%. Para os gestores do SUS, o desafio é claro: os dados agora organizados pelo Einstein servem como mapa para otimizar políticas públicas que ainda precisam superar barreiras geográficas e sociais para alcançar o controle efetivo dessas infecções.

MARCADOEinsteinHepatites ViraisprevençãoProadi-SUSSaúde Pública
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