São Paulo (SP) – Um levantamento abrangente, conduzido por pesquisadores do Einstein, consolidou a realidade das hepatites virais no Brasil ao analisar 200 estudos científicos publicados entre 2013 e 2024. A investigação, que cruzou dados de mais de 14,5 milhões de brasileiros, integra o projeto de Caracterização de Hepatites Virais em Populações Vulnerabilizadas, iniciativa ligada ao Proadi-SUS. O material agora disponível, publicado na revista PLOS ONE, fornece insumos técnicos para que o país tente cumprir o compromisso global de eliminar essas patologias como problema de saúde pública até o fim desta década.
Embora as variantes B e C recebam mais atenção por sua capacidade de cronificar, o cenário brasileiro é complexo e exige olhares atentos a formas distintas de transmissão. João Renato Rebello Pinho, médico do Departamento de Patologia Clínica do Einstein e coordenador da análise, aponta uma mudança de comportamento significativa no caso da hepatite A. Antes associada quase exclusivamente à precariedade sanitária e à ingestão de água ou alimentos contaminados, a enfermidade registrou um movimento de retorno via transmissão sexual oral/anal, afetando inicialmente grupos de homens que fazem sexo com homens, mas atingindo progressivamente outros perfis populacionais.
O especialista desmistifica o contágio casual em ambientes públicos, reforçando que a transmissão de pessoa a pessoa requer proximidade íntima ou falhas graves de higiene, como a falta de lavagem das mãos após o uso do banheiro. Enquanto no Norte e Nordeste a hepatite A ainda circula pelo ciclo fecal-oral tradicional, no Sul, Sudeste e Centro-Oeste, a falta de vacinação gratuita para maiores de 18 anos tem deixado lacunas importantes na prevenção.
Quanto às formas B e C, o foco recai sobre o sexo desprotegido, o compartilhamento de instrumentos perfurocortantes em usuários de drogas injetáveis e a transmissão vertical. Pinho destaca, contudo, um sucesso notável do SUS: a quase erradicação da transmissão de hepatite B de mãe para filho. Se a hepatite B dispõe de vacina eficaz, a tipo C, apesar de não possuir imunizante, conta atualmente com tratamentos capazes de curar mais de 95% dos pacientes, mudando radicalmente o prognóstico da doença.
Em paralelo, a hepatite D, ou Delta, permanece sob um manto de invisibilidade. Acometendo majoritariamente populações ribeirinhas na Amazônia, a doença é intrinsecamente ligada à hepatite B — ninguém contrai o vírus Delta sem ser portador do vírus B. Em áreas isoladas, a coinfecção pode levar a quadros fulminantes, cirrose e câncer de fígado com maior rapidez, transformando-a em um desafio logístico e assistencial severo para o sistema público.
Por fim, a hepatite E surge como um enigma zoonótico. No Brasil, o vírus circula entre animais, especialmente suínos, configurando um risco que exige a abordagem de Saúde Única, integrando o cuidado humano ao controle sanitário animal. A prevalência observada na Região Sul, onde a suinocultura é pujante, é um indicativo do alcance dessa via de transmissão.
O diagnóstico das populações mais vulneráveis traz dados preocupantes: entre os encarcerados, a soroprevalência da hepatite A chega a 88,1%. Para os gestores do SUS, o desafio é claro: os dados agora organizados pelo Einstein servem como mapa para otimizar políticas públicas que ainda precisam superar barreiras geográficas e sociais para alcançar o controle efetivo dessas infecções.
