Rio de Janeiro (RJ) – Na reta final da gestação, Nataly Saldanha carrega consigo a tranquilidade de quem cumpriu o protocolo à risca. Às 39 semanas de gravidez, a moradora do Rio de Janeiro exibe uma carteira de vacinação impecável, fruto de uma rotina rigorosa de consultas na rede pública de saúde. Para ela, a imunização não é um detalhe burocrático, mas uma ferramenta indispensável para assegurar que Noely, sua filha que chega em breve, nasça em um ambiente de proteção máxima contra doenças preveníveis.
O cenário, porém, é heterogêneo pelo país. Enquanto pacientes como Nataly e a analista de marketing Raissa Silva de Oliveira — esta última com 34 semanas de gestação — priorizam a ciência, os números nacionais mostram um abismo entre a recomendação médica e a realidade das salas de vacina. Em 2025, a cobertura vacinal de gestantes contra a covid-19 estacionou em 55%, e a de influenza em 63%, distanciando-se perigosamente da meta de 90% estipulada pelo Ministério da Saúde.
O impacto dessa hesitação deixa rastros dolorosos. Levantamentos oficiais apontam que, entre 2022 e agosto de 2026, pelo menos 286 gestantes ou puérperas foram diagnosticadas com síndrome respiratória aguda grave (SRAG) decorrente de gripe, resultando em 25 mortes. No mesmo intervalo, a covid-19 vitimou 21 mulheres, após mais de 200 casos graves. Durante o ápice da crise sanitária, entre 2020 e 2022, o quadro foi ainda mais devastador: 811 óbitos foram registrados em uma base de 3.547 diagnósticos graves.
Para Flávia Bravo, diretora da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), a resistência se divide entre a acomodação em relação à gripe — vista erroneamente como uma doença de menor gravidade — e uma desinformação persistente sobre os imunizantes contra a covid-19, frequentemente rotulados sem base técnica como “experimentais”. A ciência, contudo, desmente essa narrativa: estudos brasileiros confirmam que a vacinação reduziu para um terço a taxa de casos mensais de SRAG e tornou a mortalidade cinco vezes menor.
A gestação impõe uma vulnerabilidade natural. A ginecologista Giuliane Lajos, membro da Febrasgo, esclarece que as alterações imunológicas e fisiológicas necessárias para o desenvolvimento do feto deixam a mulher mais exposta a infecções graves. “Menos chá revelação e mais vacinação”, costuma brincar a especialista, reforçando que a imunização previne não apenas a internação materna, mas também danos placentários, prematuridade e morte fetal.
A proteção transplacentária é outro pilar fundamental. Como os bebês só iniciam o esquema vacinal básico aos seis meses, eles dependem exclusivamente dos anticorpos maternos para sobreviverem aos primeiros meses de vida. Ensaios clínicos demonstram que, com a mãe vacinada, a incidência de gripe no recém-nascido cai cerca de 70%, enquanto a presença de anticorpos no cordão umbilical é superior à observada no sangue materno.
O sucesso das campanhas demonstra que o engajamento funciona. A vacinação contra o vírus sincicial respiratório (VSR), iniciada recentemente, atingiu 86% do público-alvo, reduzindo pela metade as internações de bebês no primeiro semestre de 2026 em comparação ao ano anterior. O mesmo padrão de eficácia é visto na luta contra o tétano neonatal e a difteria, praticamente eliminados no Brasil, e na queda progressiva dos casos de coqueluche, que dependem diretamente da cobertura de gestantes para proteger os recém-nascidos.
Diante do desafio, médicos de família, como Catarina Jatobá, adotam estratégias práticas: integrar a consulta de pré-natal com a aplicação da vacina, eliminando barreiras logísticas. A busca ativa, realizada por agentes comunitários, e o diálogo em grupos de gestantes tornam-se, assim, as principais armas para combater mitos. Afinal, como ressalta Nataly, a chance de redescobrir a maternidade com o respaldo da ciência é uma oportunidade que ela faz questão de abraçar.
