A oferta da vacina contra o HPV na rede pública mudou o cenário da saúde feminina juvenil no país. Um estudo veiculado na revista científica Human Vaccines & Immunotherapeutics revela que as consultas médicas no Sistema Único de Saúde (SUS) motivadas por lesões pré-cancerígenas no colo do útero caíram quase 78% entre adolescentes. A queda acompanha o avanço da imunização disponibilizada no Brasil.
O pico de atendimentos ocorreu logo no início da campanha pública. Em 2011, 474 adolescentes de 15 a 19 anos buscaram os serviços de saúde devido a neoplasias intraepiteliais cervicais de alto grau, número que subiu para 603 em 2015. A partir dali, os registros despencaram: caíram para 299 em 2019 e chegaram a apenas 136 em 2023. Quando observada a taxa proporcional por 100 mil adolescentes — indicador que corrige variações no tamanho da população —, o índice desceu de 7,1 para 1,8 na mesma faixa etária, a única a apresentar retração tão expressiva.
Para checar se a mudança refletia apenas uma redução geral na procura por atendimento, pesquisadores da farmacêutica MSD analizaram dados do Sistema de Informações Ambulatoriais de Saúde. O comportamento de outras infecções sexualmente transmissíveis apontou na direção oposta: a taxa de primeiras consultas saltou de 1,7 para 10,8 a cada 100 mil jovens no mesmo período. A comparação sustenta que a proteção imunológica foi a responsável por conter a evolução das lesões. Estimativas do estudo indicam que, sem a vacina do SUS, o país teria acumulado cerca de 7.688 atendimentos entre 2011 e 2019, em vez dos 2.620 efetivamente registrados — ou seja, cerca de 5 mil casos evitado.
Desafio para a erradicação do câncer
Causado pela infecção persistente pelo papilomavírus humano, o câncer de colo do útero ocupa a terceira posição entre os tumores mais frequentes nas mulheres brasileiras, somando cerca de 19 mil diagnósticos e 7 mil mortes por ano. A Organização Mundial da Saúde aponta que a doença pode ser erradicada em alguns anos, desde que o país garanta coberturas vacinais elevadas, exames de rastreamento periódicos e tratamento adequado das neoplasias antes que evoluam para tumores malignos.
Atualmente aplicada em meninas e meninos de 9 a 14 anos — o público masculino foi incluído em 2017 —, a vacina do SUS também é oferecida pelo Ministério da Saúde em ações de resgate para jovens de até 19 anos e para grupos vulneráveis, como vítimas de violência sexual, usuários de profilaxia pré-exposição ao HIV e pessoas com histórico de lesões. O vírus é altamente prevalente — calcula-se que 80% das pessoas terão contato com ele ao longo da vida —, afetando também tecidos do pênis, ânus, vagina e orofaringe. Por isso, a combinação entre vacinação, avaliação de sinais clínicos e exames preventivos, como o papanicolau, permanece como o caminho fundamental para evitar o avanço da doença.
