O número de fragmentos isolados de vegetação nativa no Brasil saltou de 2,7 milhões para 7,1 milhões entre 1986 e 2023, um crescimento de 260%. Os dados foram divulgados nesta quarta-feira pelo MapBiomas, por meio de seu novo Módulo de Degradação, que monitora as transformações no uso do solo em todo o território nacional. O levantamento revela que, enquanto a quantidade de porções isoladas aumentou drasticamente, o tamanho médio dessas áreas encolheu de 241 hectares para apenas 77 hectares no mesmo período.
Impactos da fragmentação
Dhemerson Conciani, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam), alerta que a redução da área média dos fragmentos compromete a biodiversidade. Áreas menores dificultam a sobrevivência da fauna e da flora, elevando o risco de extinções locais e limitando a capacidade de recolonização das espécies. Além disso, a fragmentação intensifica o chamado efeito de borda, quando as características naturais da floresta são prejudicadas nas margens próximas a áreas degradadas.
Diferenças regionais
A Mata Atlântica e o Cerrado concentram o maior número absoluto de fragmentos, com 2,7 milhões de porções isoladas cada. No entanto, as causas divergem entre os biomas. No Cerrado, o fenômeno é impulsionado pelo desmatamento que divide grandes extensões de vegetação. Na Mata Atlântica, o cenário é mais complexo, pois o aumento de fragmentos também reflete o surgimento de áreas de vegetação secundária em processo de recuperação.
Os biomas que registraram a maior fragmentação proporcional ao longo das quase quatro décadas foram o Pantanal e a Amazônia, com altas de 350% e 332%, respectivamente. A Amazônia também sofreu a maior redução no tamanho médio das áreas, que caíram de 2.727 hectares para 492 hectares. Pampa, Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica completam o mapeamento com variações distintas em seus índices de isolamento vegetal.
Novas análises e degradação
A nova plataforma permitiu identificar distúrbios no dossel da Amazônia Legal, ou seja, alterações nas copas das árvores causadas por eventos climáticos ou ação humana. Entre 1988 e 2024, 7% da cobertura florestal da região apresentou sinais de perturbação. O corte seletivo de madeira destaca-se como um dos principais vetores, atingindo 9,7 milhões de hectares. No total, 24% da vegetação nativa remanescente no país, cerca de 134 milhões de hectares, enfrenta algum tipo de degradação.
A identificação precoce desses vetores, como o fogo e o corte seletivo, é vista pelos especialistas como uma ferramenta fundamental para o planejamento ambiental. O objetivo é que esses dados orientem políticas públicas voltadas à redução das emissões de gases de efeito estufa e à recuperação de ecossistemas estratégicos, garantindo a preservação das funções ambientais necessárias para o equilíbrio do país.
