Leme (SP) – As memórias de Carlos Hogendorp, um policial de 31 anos que também atua como cantor sob o nome artístico Osmin Carlson, são marcadas pelo contraste entre o frio rigoroso de Leeuwarden, na Holanda, e a busca incessante por suas origens brasileiras. Adotado aos 4 anos de idade em Leme, no interior de São Paulo, ele deixou o Brasil acompanhado de dois irmãos biológicos, Joseir e Isabel, para integrar uma família holandesa. Hoje, após décadas de adaptação em um país estrangeiro, Carlos utiliza sua própria trajetória como um alerta sobre a importância de garantir cuidados estruturados durante a infância de crianças em situação de vulnerabilidade.
O retorno ao Brasil em períodos de férias tornou-se uma missão pessoal. Durante essas visitas, ele promove palestras e rodas de conversa para compartilhar os desafios de sua jornada de autodescoberta. A infância de Carlos não foi simples. Antes da adoção, ele vivenciou a dura rotina de um abrigo em Leme, onde, conforme suas lembranças, enfrentou situações de violência física. Embora prefira manter a identidade de seus pais adotivos em sigilo, ele reconhece a abertura do casal durante seu crescimento, destacando que, nos primeiros anos, o auxílio de um dicionário era fundamental para que conseguissem superar as barreiras linguísticas e emocionais.
Adoção internacional e o choque cultural
O sistema de adoção internacional, amparado pela Convenção de Haia e regulamentado por decretos específicos, busca assegurar que o interesse da criança prevaleça, prevenindo práticas ilícitas como o tráfico de menores. No caso de Carlos, o processo transcorreu dentro da legalidade, permitindo sua integração à sociedade holandesa. O aprendizado da nova língua foi rápido, embora a adaptação cultural tenha sido um processo complexo. A conexão com o Brasil, curiosamente, começou a despertar de forma simbólica durante a Copa do Mundo de 1998, quando ele se viu torcendo fervorosamente pela seleção brasileira, um sentimento que se intensificou com o passar dos anos.
A necessidade de compreender seu passado ganhou força em 2013, quando a gravidez de sua namorada o fez refletir sobre a própria identidade. O desejo de entender por que não permaneceu em seu país natal o levou a buscar apoio em um programa de televisão holandês. Foi assim que ele conseguiu localizar sua mãe biológica, Maria de Fátima, e outros 16 irmãos no Brasil. O reencontro trouxe um choque de realidade, especialmente ao confrontar a situação de marginalidade em que parte de sua família biológica vivia, incluindo o histórico de prisões da mãe, que cumpriu pena por furto e envolvimento com tráfico.
O compromisso com o apadrinhamento
Ver de perto a realidade de crianças em orfanatos brasileiros e em situação de rua gerou em Carlos um senso de responsabilidade. Ele defende que o apadrinhamento afetivo é uma ferramenta essencial para apoiar menores que, dentro de instituições, possuem chances reduzidas de retorno ao núcleo familiar biológico. Sua atuação voluntária foca em incentivar que famílias brasileiras priorizem a adoção nacional, evitando a saída das crianças para o exterior, uma vez que a experiência de ser um brasileiro adotado em outro país carrega, muitas vezes, um silêncio melancólico sobre as raízes perdidas.
Apesar de reconhecer que nunca lhe faltou amor em sua casa holandesa, Carlos admite que o choque entre culturas e a ausência de determinados gestos de afeto, típicos da convivência brasileira, deixaram marcas profundas. O sonho de retornar ao Brasil para viver e apresentar o país à sua filha, Viena, de 13 anos, permanece vivo. Para ele, a infância bem tratada é o único caminho para abrir portas reais de oportunidade. Sua história, mais do que um relato de superação, é um convite para que o país olhe com mais atenção para o acolhimento daqueles que, como ele um dia, esperam apenas por um lugar onde possam finalmente se sentir em casa.
