O tradicional cortejo do bloco afro Ilú Obá de Min tomou as ruas do Bixiga, na região central de São Paulo, na noite desta segunda-feira (13). O ato, realizado anualmente na data que marca a Abolição da Escravatura, reuniu centenas de mulheres negras para uma lavagem simbólica da Escadaria do Bixiga e da Rua 13 de Maio. Ao som de tambores e utilizando água de cheiro, o grupo ocupou o espaço público como forma de protesto contra o que classificam como uma falsa abolição e a invisibilidade histórica de suas narrativas.
Resgate histórico e territorial
A escolha pelo bairro não é por acaso. Embora a região seja amplamente reconhecida pela herança das cantinas italianas, o Bixiga foi um território fundamental para a população negra paulistana, abrigando o Quilombo Saracura e sendo o berço do samba local. Beth Beli, presidenta e regente do bloco, enfatiza que o evento busca reivindicar essa memória, lembrando que a área era conhecida como Pequena África no início do século 20, antes de ser alvo de projetos de branqueamento urbano.
A força do coletivo
O manifesto lido durante o evento destacou o protagonismo das mulheres negras nas lutas sociais ao longo dos séculos. O texto denuncia as opressões estruturais, como o racismo, o machismo e o capacitismo, defendendo a construção de novos valores baseados na cooperação mútua. Para as integrantes do bloco, o tambor atua como uma ferramenta de comunicação milenar, capaz de amplificar vozes e servir como escudo contra as desigualdades que ainda persistem na sociedade brasileira.
Tradição e continuidade
Iniciada pelo coletivo Ori Axé, a tradição da lavagem é mantida hoje pelo Ilú Obá de Min, que completou duas décadas de existência em 2024. O grupo, formado por 420 integrantes entre ritmistas e dançarinas, utiliza a água de cheiro como um elemento de purificação contra as heranças cruéis da escravidão. O ato de lavar as ruas funciona como um lembrete físico e sonoro de que a presença africana é a base da identidade do bairro e não pode ser apagada por narrativas oficiais.
A manifestação, que ocorre desde 2006, reafirma o compromisso do bloco em utilizar a arte como trincheira política. Ao ocupar o centro da capital paulista com batuques e corpos em movimento, o Ilú Obá de Min busca recontar a história do país sob a perspectiva de quem, por muito tempo, teve sua voz silenciada nas páginas tradicionais dos livros didáticos.
