Bahia (BA) – No Brasil, o cenário da adoção ainda é marcado pela preferência por bebês, o que deixa crianças mais velhas, grupos de irmãos e crianças negras em um longo compasso de espera. Foi rompendo essa lógica que o cabeleireiro Alexandre Rank, ao buscar uma menina de quatro anos em uma plataforma de busca ativa no interior da Bahia, tomou uma decisão definitiva: ao descobrir que ela tinha outros três irmãos, decidiu que não separaria a família.
O primeiro encontro foi um divisor de águas. “Pai, você veio”, disse a menina ao vê-lo. O que começou como o desejo de adotar uma criança tornou-se um compromisso inegociável com os quatro irmãos. Mesmo diante dos alertas da advogada sobre a responsabilidade educacional e moral que assumiria, Alexandre foi enfático: ou levava todos, ou não levaria ninguém. Para ele, o vínculo foi amor à primeira vista, consolidado em cada visita de aproximação.
A juíza Adida Alves dos Santos explica que o processo exige rigor para garantir segurança e estabilidade. Segundo a magistrada, as visitas são fundamentais para a construção do vínculo. Após essa etapa, inicia-se um estágio de convivência com acompanhamento que pode durar até 180 dias, período crucial para que a família e os adotados se adaptem à nova realidade. O desafio, contudo, vai muito além da burocracia do sistema jurídico.
Alexandre enfrentou o trauma do abandono — que levava um dos filhos a rejeitá-lo como mecanismo de defesa — e o preconceito por ser um pai solo, gay e branco com filhos negros. A resposta veio na persistência do afeto: “Eu te amo, você não gosta de mim, mas meu amor é tão grande que dá para dividir”. Hoje, o cabeleireiro celebra o progresso das crianças, que chegaram sem saber ler e hoje são reconhecidas pela educação e pelo respeito, provando que a adoção tardia é, acima de tudo, um encontro de vidas.
