Belém (PA) – O Brasil acaba de ampliar sua presença na lista da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Na madrugada desta segunda-feira (27), o comitê internacional aprovou a inscrição do Theatro da Paz, em Belém, e do Teatro Amazonas, em Manaus, sob a chancela de Patrimônio Mundial Cultural. A candidatura, apresentada em conjunto sob a alcunha de Teatros da Amazônia, celebra o auge de uma época em que o ciclo do látex transformou a região em um epicentro de prosperidade econômica e sofisticação cultural no final do século XIX.
Com esta nova titulação, o país chega à marca de 26 bens listados pela Unesco, figurando ao lado de marcos como o conjunto histórico de Ouro Preto, a arquitetura de Brasília e a riqueza natural do Complexo de Conservação da Amazônia Central.
A história das duas casas de espetáculo revela os desafios de se importar a estética europeia para o coração da floresta. O Theatro da Paz, em Belém, foi inaugurado em 1878, após um projeto conduzido pelo engenheiro José Tibúrcio Pereira Magalhães. Embora as obras tenham sido concluídas em 1874, uma série de denúncias sobre irregularidades administrativas e custos da obra forçou o adiamento de sua abertura. Inspirado pelo Teatro alla Scala, de Milão, o prédio destaca-se pelo estilo neoclássico adaptado às necessidades locais, incluindo uma engenhosa caixa d’água de 40 mil litros instalada sob o fosso da orquestra, solução que otimizou tanto a acústica quanto o sistema de refrigeração.
A cerca de 18 anos de distância cronológica, o Teatro Amazonas consolidou sua posição em Manaus em 1896. Projetado inicialmente pelo deputado provincial Antônio José Fernandes Júnior e concretizado sob a supervisão do arquiteto italiano Celestial Sacardim, o prédio é uma vitrine do ecletismo arquitetônico. Seus detalhes encantam até hoje, especialmente a cúpula central, composta por 36 mil peças coloridas importadas da Alsácia, na França. Internamente, o Salão Nobre exibe o afresco A Glorificação das Bellas Artes na Amazônia, assinado pelo italiano Domenico de Angelis, enquanto o decorador Crispim Amaral orquestrou a mistura de elementos neoclássicos que definem o espaço.
Ambos os teatros já possuíam o reconhecimento nacional do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O Teatro Amazonas, por exemplo, é tombado desde 1966 e mantém preservada grande parte de sua decoração original, mesmo após décadas de operação. A escolha por apresentar a candidatura como um bloco unificado faz sentido: além da proximidade temporal, os dois edifícios personificam a tentativa deliberada das elites da borracha em espelhar o brilho cultural europeu, transformando materiais trazidos do exterior em símbolos permanentes da identidade amazônica.
