Lisboa, Portugal – O cuidado extremo com a discrição em um dos hotéis mais exclusivos de Lisboa acabou virando rastro em um inquérito que tramita no Supremo Tribunal Federal. Em junho de 2024, o banqueiro Daniel Bueno Vorcaro demonstrou preocupação explícita com a privacidade ao reservar duas suítes no luxuoso Four Seasons da capital portuguesa. Os destinatários dos quartos eram o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira.
Os detalhes dessa articulação de bastidores constam no relatório final da Operação Compliance Zero, produzido em abril e que teve o sigilo levantado nesta terça-feira (16) pelo ministro André Mendonça, relator do caso Master na Corte. O documento expõe mensagens de WhatsApp extraídas do aparelho celular do banqueiro.
A engenharia das reservas e o preço do silêncio
No dia 18 de junho de 2024, Vorcaro acionou um intermediário identificado como Leo Serrano para providenciar a estadia de “Ciro e Hugo”. Pouco depois de confirmar o agendamento, o banqueiro enviou um áudio a Serrano insistindo na necessidade de isolar a área externa em frente ao local, de modo a bloquear totalmente a visão de quem passasse pela rua.
O custo daquela temporada de cinco dias foi de aproximadamente 3 mil euros — algo em torno de R$ 18 mil na cotação da época. A fatura, enviada diretamente para o e-mail do empresário, trazia a discriminação exata do serviço: duas “Junior Suites”, reservadas nominalmente para o senador e para o deputado federal.
Relação antiga e roteiros milionários pela Europa e EUA
A estadia em Portugal, contudo, é apenas a ponta de um iceberg de mimos e facilidades financiados pelo banqueiro. O cruzamento de dados financeiros e mensagens interceptadas indica uma proximidade muito estreita e de longa data especificamente com o senador Ciro Nogueira.
A lista de destinos turísticos internacionais patrocinados por Vorcaro ao parlamentar do PP inclui passagens e estadas em Nova Iorque, Paris e na badalada estação de esqui de Courchevel, nos Alpes franceses. Fora as despesas com jatos particulares, esses deslocamentos custaram exatamente R$ 468.721,78 ao empresário.
Diferentes situações jurídicas e silêncio
Embora apareça nos registros de hospedagem em Lisboa, Hugo Motta não figura como investigado no inquérito. O deputado se manifestou publicamente sobre o caso e minimizou o episódio, declarando estar absolutamente tranquilo. Segundo ele, sua ida à Europa naquele período ocorreu unicamente para participar de um fórum jurídico organizado pelo ministro Gilmar Mendes.
O cenário é diferente para Ciro Nogueira. O senador é um dos alvos formais da investigação e já foi submetido a mandados de busca e apreensão expedidos pelo Supremo Tribunal Federal. Procurado para comentar as conclusões do relatório e o custeio de suas viagens internacionais, o parlamentar preferiu não se manifestar até o momento.
