Ceuta, Espanha – O cenário em Ceuta, enclave espanhol situado no extremo norte da África, tornou-se palco de uma disputa geopolítica complexa após a chegada de mais de 50 mil imigrantes nos últimos dias. A magnitude do fluxo, que resultou em cerca de 100 mortes, reabriu o debate sobre a influência de Marrocos no controle de suas fronteiras e as tensões diplomáticas com o governo de Pedro Sánchez.
Para o historiador Nuno Carlos de Fragoso Vidal, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a movimentação em escala tão elevada dificilmente ocorreria sem o beneplácito deliberado das autoridades de Rabat. Segundo ele, o descontentamento marroquino está atrelado às aproximações de Sánchez com alas da esquerda espanhola defensoras da independência do Saara Ocidental. Essa retaliação seria um movimento calculado contra o apoio que a Frente Polisário, grupo insurgente historicamente respaldado pela Argélia, recebe de setores políticos europeus.
A tese de controle absoluto é compartilhada pelo ítalo-brasileiro José Luís Del Roio. Ex-senador, ele descreve o sistema marroquino como um Estado policial altamente eficiente, capaz de monitorar cada movimento em seu território. Para o analista, a passagem de 80 mil jovens sem qualquer resistência demonstra uma opção política pela inércia. Del Roio vai além ao sugerir que a crise teria sido um evento programado por interesses externos — incluindo suspeitas sobre Israel, dado o descontentamento de Tel Aviv com a posição espanhola em Gaza e na Cisjordânia, embora o Marrocos mantenha relações normalizadas com Israel através dos Acordos de Abraão.
Contudo, a visão de que Marrocos orquestrou a crise não é consenso entre os acadêmicos. Mohammed Nadir, professor de relações internacionais da Universidade Federal do ABC, defende que a avalanche humana possui raízes mais profundas e menos relacionadas a ordens governamentais. De acordo com Nadir, o governo de Sánchez já havia avançado no reconhecimento das pretensões marroquinas sobre o Saara Ocidental em 2022, o que deveria, em tese, ter distensionado as relações. A causa real, segundo sua análise, seria o esgotamento social: uma juventude sem perspectivas, sufocada pelo aumento do custo de vida e pela precariedade da saúde pública.
O próprio serviço de inteligência da Espanha parece adotar uma via intermediária. Conforme apurações recentes, os órgãos de segurança espanhóis não encontraram evidências de um planejamento centralizado por Rabat, mas confirmaram a existência de um nítido oportunismo. O governo marroquino teria permitido que o fluxo ocorresse, utilizando a crise como alavanca política após ela já ter sido iniciada de forma autônoma pela população.
A situação é agravada pelas antigas disputas territoriais sobre Ceuta e Melilla. O professor Vidal observa que, em um momento em que a importância geoestratégica do Estreito de Gibraltar é crescente, o Marrocos mantém suas reivindicações históricas sobre esses enclaves. Mesmo com o esforço diplomático de Madri em elogiar a cooperação marroquina para a deportação de imigrantes irregulares, o presidente de Ceuta, Juan Jesús Vivas, mantém uma postura cética, afirmando publicamente que o vizinho africano não se mostra um parceiro confiável.
Neste cenário de acusações cruzadas, o governo de Marrocos rompeu o silêncio no último domingo. Por meio de um porta-voz, Rabat negou qualquer responsabilidade direta, atribuindo a crise à disseminação coordenada de notícias falsas em redes sociais. A versão oficial sugere que a ilusão de um acesso facilitado ao solo europeu foi fabricada por atores externos, transformando a crise em um teste de resiliência para as políticas de fronteira de toda a Europa.
