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Polipílula brasileira contra o AVC recruta 8,5 mil voluntários para estudo nacional
Saúde

Polipílula brasileira contra o AVC recruta 8,5 mil voluntários para estudo nacional

Última atualização: 14 de Agosto, 2026 18:28
Por
Erre Soares
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4 Min Leia
📷 Imagem de Arquivo/Agência Brasil
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Porto Alegre (RS) – O desafio é ambicioso: mapear a eficácia de uma estratégia terapêutica capaz de alterar o curso da principal causa de mortes no Brasil. Desde o final de 2025, pesquisadores brasileiros concentram esforços para recrutar 8,5 mil voluntários dispostos a participar de um acompanhamento rigoroso, que deve durar entre três e quatro anos. A protagonista dessa mobilização é a primeira polipílula brasileira voltada especificamente ao combate ao acidente vascular cerebral (AVC) e outras patologias do sistema circulatório.

A fórmula, desenvolvida para simplificar o tratamento, combina rosuvastatina (10 mg) para o controle do colesterol, além de valsartana (80 mg) e anlodipina (5 mg), ambos destinados ao manejo da hipertensão. A proposta é unificar a dosagem, facilitando a adesão do paciente ao protocolo médico. A iniciativa é conduzida pelo Hospital Moinhos de Vento, em Porto Alegre, sob a liderança da neurologista Sheila Martins. O projeto conta com o suporte do Ministério da Saúde, operacionalizado pelo Proadi-SUS, e articula uma rede composta por secretarias de saúde e unidades de atenção primária espalhadas pelo território nacional.

Para integrar o grupo, existem critérios precisos. O candidato deve ter entre 50 e 75 anos, jamais ter sofrido um AVC ou infarto e, crucialmente, não utilizar medicações prévias para diabetes, colesterol ou hipertensão. Durante o estudo, os participantes são divididos aleatoriamente: uma parcela recebe a polipílula, enquanto a outra ingere um placebo. O acompanhamento, totalmente gratuito, estende-se por 14 centros de referência em estados como Bahia, Acre, Minas Gerais, São Paulo e Rio Grande do Sul, com planos de expansão para novas localidades.

O monitoramento vai além dos comprimidos. A pesquisa incorpora o uso do aplicativo Riscômetro, uma ferramenta que permite ao próprio paciente calcular seu nível de perigo para doenças cardiovasculares. O uso da tecnologia, notado já na fase piloto, demonstrou ser um gatilho comportamental positivo: usuários passaram a praticar mais exercícios físicos e até abandonaram o tabagismo, reforçando a ideia de que o empoderamento por meio da informação é um aliado poderoso.

A urgência do estudo justifica-se pelos números. O AVC vitimou quase 90 mil brasileiros apenas no último ano, segundo registros oficiais. A Organização Mundial do AVC projeta um cenário preocupante: a mortalidade global pela doença pode saltar de 6,6 milhões em 2020 para 9,7 milhões até 2050. No entanto, a ciência aponta um caminho de esperança. Cerca de 90% desses desfechos trágicos seriam evitáveis caso os fatores de risco, especialmente a pressão arterial, fossem mantidos sob controle.

A medicina tradicional geralmente prescreve intervenções medicamentosas apenas quando a pressão atinge o patamar de 140 por 90 mmHg. Contudo, os especialistas envolvidos neste estudo questionam esse limite. Eles argumentam que riscos significativos já aparecem a partir de 115 por 75 mmHg. Ao intervir preventivamente com baixas doses, a equipe observou, durante os testes preliminares, uma redução de 12 mmHg na pressão máxima e uma queda expressiva nos níveis de colesterol. Se os resultados atuais confirmarem essa tendência, o Brasil estará diante de uma nova política pública de saúde, transformando o manejo clínico de uma doença que, até então, seguia apenas a lógica da reação, e não da prevenção.

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