Washington, Estados Unidos – A marca histórica de US$ 40 trilhões na dívida pública dos Estados Unidos não surgiu por acaso. O montante, que dobrou desde 2017, é reflexo de um emaranhado de escolhas políticas e pressões externas. O cenário combina a redução sistemática de impostos para a parcela mais rica da população, os impactos inflacionários dos conflitos no Oriente Médio — que encareceram combustíveis — e as tarifas sobre importações defendidas por Donald Trump.
Por trás desses números, há uma engrenagem que consome cada vez mais recursos. Os gastos com juros da dívida alcançaram a cifra de US$ 1,1 trilhão, superando em mais de duas vezes o custo registrado em 2021, quando a conta somava US$ 419 bilhões. Paralelamente, o orçamento militar segue em patamares elevados, próximo a US$ 1 trilhão anuais. Esse peso sobre o Tesouro é agravado pela percepção de mercado sobre o que especialistas chamam de risco Trump, um reflexo da imprevisibilidade na condução da política externa e das disputas comerciais, como a que envolve o Canadá.
Embora o volume da dívida seja inédito, a maioria dos economistas descarta o risco de insolvência. O professor da Unicamp Pedro Paulo Zahluth Bastos aponta que, por emitirem a própria moeda e possuírem o dólar como principal reserva internacional, os EUA detêm ferramentas para evitar o colapso. Caso o mercado sinalize resistência aos títulos, o Federal Reserve (FED) possui histórico e capacidade para intervir na compra desses ativos, prática observada tanto em 2020 quanto no pós-guerra, entre 1942 e 1951.
Mesmo assim, o comportamento dos juros de longo prazo preocupa. Em 18 de agosto, os rendimentos dos papéis de 30 anos tocaram 5,33%, o nível mais alto desde 2007. Pedro Faria, economista associado à UFMG, observa que o valor nominal da dívida isoladamente não revela a capacidade de pagamento. A questão, segundo ele, reside na comparação com o Produto Interno Bruto (PIB) e na tendência de déficit que acompanha as grandes economias desde 2008. Enquanto isso, o governo americano reagiu ao anúncio do recorde projetando dobrar suas operações de recompra de títulos, passando de US$ 2 bilhões para US$ 4 bilhões a partir de 9 de setembro.
A raiz do problema fiscal, contudo, é apontada como uma questão de receita insuficiente, não apenas de excesso de gastos. Com uma carga tributária de cerca de 25% do PIB — bem abaixo da média de 34% da OCDE —, os Estados Unidos têm visto a arrecadação sobre lucros cair 23% neste ano fiscal. Projetos aprovados em 2025 ampliaram ainda mais o corte de impostos para os estratos mais altos, gerando uma expectativa de déficit adicional de US$ 4,7 trilhões em uma década, enquanto áreas como a saúde pública sofreram cortes profundos.
A confiança global nos títulos do Tesouro, historicamente o ativo considerado mais seguro do mundo, enfrenta um novo tipo de teste. O movimento de países como China e Brasil em diversificar reservas para além do dólar é visto como uma resposta à percepção de que a política da Casa Branca tornou-se errática. Se o prestígio dos papéis americanos diminuir, não será pelo tamanho da dívida em si, mas pela eventual erosão dos pilares institucionais, como a independência do FED e a estabilidade das relações internacionais.
