Brasília (DF) – Pressionado pelos impactos financeiros e de saúde pública das apostas eletrônicas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou, na terça-feira (1º), no Palácio do Planalto, em Brasília, que o governo federal adotará medidas severas contra as chamadas “bets” após concluir uma rodada de consultas com a sociedade civil. O presidente pretende bater o martelo sobre o tema ainda nesta semana, indicando que uma decisão mais drástica está no horizonte.
Lula não esconde o incômodo com o atual cenário. Embora pondere sobre as ramificações políticas, sociais e econômicas de uma canetada presidencial, ele classifica as apostas online como um “mal para a sociedade”. O diagnóstico realista esbarra na complexidade de fiscalização: são cerca de 60 mil plataformas clandestinas operando no país, impulsionadas por campanhas publicitárias agressivas estreladas por celebridades e forte apelo até em transmissões esportivas como as da Copa do Mundo.
O rombo no orçamento doméstico
Os números que sustentam a urgência do Planalto impressionam. Somente no ano passado, o prejuízo líquido das famílias brasileiras com as bets alcançou R$ 62,5 bilhões — valor que desconta os prêmios pagos aos apostadores do montante total apostado. Esse ralo financeiro consumiu 0,68% da Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias. Entre outubro de 2024 e março de 2026, a sangria média mensal foi calculada em R$ 4,7 bilhões, num ecossistema que movimentou quase R$ 351 bilhões em transferências via Pix.
De 600 a 100 mil atendimentos no SUS
A fatura social do jogo também desaguou na rede pública de saúde de forma abrupta. Segundo dados apresentados pelo ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o Sistema Único de Saúde (SUS), que havia estruturado inicialmente uma oferta de 600 atendimentos mensais para o vício em jogos, hoje realiza cerca de 100 mil acolhimentos por mês. Curiosamente, embora os homens joguem mais, as mulheres representam 55% das pessoas que buscam tratamento terapêutico contra a dependência, apoio que agora também pode ser solicitado pela plataforma SUS Digital. O avanço do problema é global, tanto que o Brasil, ao lado de Canadá e Espanha, lidera discussões na Organização Mundial de Saúde (OMS) para aprovar uma resolução conjunta sobre o tema.
Relatos de colapso familiar e comercial
Durante a reunião conduzida pela ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, o governo ouviu apelos dramáticos de entidades de proteção à infância, representantes do comércio, do setor econômico e da saúde. Um dos relatos expôs o drama de um pai cuja filha acumulou dívidas com agiotas por causa do vício digital. Comerciantes também apontaram a alta da inadimplência no varejo, provocada pelo desvio de renda para as apostas. Entre as sugestões levadas ao presidente, que estava acompanhado de ministros como Guilherme Boulos, Wellington César Lima e Silva, Sidônio Palmeira e Paulo Henrique Cordeiro, está a criação de uma secretaria extraordinária focada exclusivamente em combater o mercado ilegal de bets.
