Brasília (DF) – Um documento sigiloso produzido pela Agência Brasileira de Inteligência (Abin) colocou o governo federal em alerta. O texto, enviado no final de agosto à Presidência da República, ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e ao Ministério da Justiça, sinaliza o risco concreto de interferência dos Estados Unidos no processo eleitoral brasileiro. A inteligência nacional classifica a ameaça com um alto nível de criticidade, associando o movimento à estratégia de Washington de reafirmar sua hegemonia na América Latina e neutralizar a influência de rivais, especialmente a China, sobre ativos estratégicos e infraestrutura local.
O cenário de tensão contrasta com o discurso público do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que insiste em manter uma relação cordial com Donald Trump. Desde o primeiro contato presencial durante a Assembleia Geral da ONU, em setembro de 2025 — momento descrito por Trump como uma conexão química imediata —, os líderes mantiveram diálogos. Contudo, a diplomacia de portas fechadas tem sido atropelada por uma sequência de medidas unilaterais.
A ofensiva econômica começou em abril de 2025, com tarifas de 10% sobre produtos brasileiros, mas ganhou contornos políticos severos em 30 de julho. Naquela data, Trump assinou uma Ordem Executiva classificando o Brasil como uma ameaça extraordinária à segurança nacional dos EUA, elevando a taxação para 50%. A justificativa oficial incluiu o combate da Justiça brasileira contra a desinformação em redes sociais, como o X e a Rumble, e a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito, interpretada pela Casa Branca como perseguição política.
O impacto jurídico foi sentido diretamente pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A aplicação da Lei Magnitsky contra o ministro Alexandre de Moraes e sua esposa, Viviane Barci Moraes, resultou no bloqueio de bens e impedimento de entrada nos Estados Unidos. A lista de sanções chegou a incluir o cancelamento de vistos de outros ministros, como Luís Roberto Barroso e Cármen Lúcia. O deputado Eduardo Bolsonaro, que apoiou ativamente a aplicação dessas sanções a partir dos EUA, acabou condenado pelo STF por coação no curso do processo, perdendo posteriormente seu mandato.
Embora a Suprema Corte dos Estados Unidos tenha invalidado parte das tarifas globais impostas por Trump em fevereiro deste ano, o governo americano manteve a pressão sobre o Brasil. Em julho, novas sobretaxas de 25% foram impostas sob alegação de práticas comerciais desleais, citando o uso do PIX e regulações ambientais. Dias depois, um adicional de 12,5% foi aplicado sob a justificativa de combate ao trabalho forçado, medida contestada pelo governo brasileiro como arbitrária.
A escalada incluiu, ainda, a designação das facções Comando Vermelho e PCC como organizações terroristas, apesar dos alertas de Brasília de que tal rótulo poderia gerar instabilidade institucional ou militar. Em agosto, a crise atingiu o campo diplomático com a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti, em meio a um impasse sobre a indicação de um novo representante americano. Mesmo após uma reunião de três horas em Washington, em maio, onde Lula defendeu o equilíbrio comercial e a cooperação contra o crime organizado, o ambiente permanece volátil. Com ambos os líderes presentes na próxima Assembleia Geral da ONU nesta terça-feira, o silêncio sobre um encontro bilateral reforça a cautela de uma relação marcada por desencontros.
