Rio de Janeiro (RJ) – O procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro, Antônio José Campos Moreira, defendeu nesta quarta-feira (2) uma mudança drástica na lógica de combate ao crime organizado. Durante um encontro com empresários do Grupo de Líderes Empresariais (Lide), ele sustentou que o Estado precisa enxergar as facções criminosas como gigantes corporativos que competem diretamente com o setor produtivo formal.
Para o procurador, o modelo tradicional de encarceramento chegou ao seu limite prático. Embora prender lideranças continue sendo uma etapa indispensável do processo penal — que inclui investigar, processar e condenar —, o isolamento físico dos chefes não tem sido capaz de desmantelar a engrenagem econômica dos grupos. O foco, segundo ele, deve ser outro: o patrimônio.
A estratégia adotada pelo Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) tem buscado, de forma crescente, a asfixia financeira. Ao priorizar a investigação patrimonial e a recuperação de ativos, os promotores tentam minar a base de sustentação dessas organizações. O raciocínio é simples, mas complexo de executar: se o dinheiro circula, o crime sobrevive. Se o capital é confiscado, a estrutura colapsa.
O avanço das facções, contudo, já não é mais um problema exclusivo da segurança pública. Ao tratar o tema perante o empresariado, o procurador foi enfático ao classificar a situação atual como uma questão de soberania nacional. O Rio de Janeiro vive um cenário de território fatiado, onde o poder estatal cede espaço ao controle direto de grupos armados.
Essa ocupação territorial não serve apenas para a guarda de entorpecentes. O domínio sobre áreas estratégicas permitiu que essas organizações diversificassem seus negócios, infiltrando-se em atividades econômicas lícitas. De acordo com a visão do procurador, o tráfico de drogas, antes o coração financeiro das facções, agora ocupa uma posição secundária diante de tantas outras fontes de receita.
As consequências para o mercado são severas. O procurador destacou que essa penetração criminosa na economia gera prejuízos diretos aos cofres públicos, com a fuga de tributos, além de afastar investimentos e inviabilizar o trabalho de empreendedores locais. Sem um combate focado nos fluxos de caixa e nos bens dessas organizações, o Estado corre o risco de ver a criminalidade se consolidar como um ator permanente e competitivo no ambiente de negócios fluminense.
