Rio de Janeiro (RJ) – Uma transação financeira realizada em um único dia de maio deste ano expôs a conexão direta entre o tradicional jogo do bicho carioca e o moderno mercado de apostas esportivas online, as chamadas bets. O mecanismo, estruturado para dar aparência de legalidade a recursos obtidos de forma ilícita, movimentou ao menos R$ 5,2 milhões e levou o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) a denunciar oito pessoas sob a acusação de lavagem de dinheiro.
Operação usava bets como fachada
A engrenagem do esquema, conforme detalhado na investigação do Núcleo de Combate aos Crimes Cibernéticos do Gaeco (Grupo de Atuação Especializada de Combate ao Crime Organizado), funcionava por meio da inserção de capitais da contravenção na economia formal. No centro da operação estava a casa de apostas Rio Jogos, gerida pela empresa Lema Administração e Participações S/A. Para camuflar a origem do dinheiro, os operadores utilizavam uma rede de empresas de fachada e pessoas que atuavam como laranjas.
O rastreamento bancário detalha a precisão temporal do esquema. No dia 6 de maio de 2024, a Lema recebeu dois aportes simultâneos de R$ 2,5 milhões cada. O primeiro depósito foi efetuado por João Eric Lourenço da Silva. O segundo partiu das contas da Apoio Consultoria Financeira, empresa controlada por outros dois denunciados: Ana Paula Batista Vitorino e João Victor de Araujo Souza. Na mesma data, em um movimento rápido, a Lema transferiu o montante consolidado de R$ 5,2 milhões à Loteria do Estado do Rio de Janeiro (Loterj) como pagamento de outorga governamental para obter o direito de explorar o mercado de apostas de cota fixa.
Bloqueio de empresas e ramificações interestaduais
A denúncia apresentada à Justiça aponta que a rede de ocultação de valores contava ainda com a participação ativa de Flavio da Silva Santos, Vinicius Pereira Drumond, Alexandre Vinicius da Costa Guedes, Jorge Roberto de Oliveira Figueiredo e Lucas Pastore Laporte de Souza. Diante dos indícios de fraude societária, a 2ª Vara Especializada em Organização Criminosa do Rio aceitou a peça de acusação e determinou a suspensão imediata do funcionamento e dos cadastros nacionais de Pessoas Jurídicas (CNPJs) das empresas JRF Eagle Participações e Invectry Participações, apontadas como intermediárias na movimentação financeira do grupo.
A coleta de provas exigiu uma força-tarefa interestadual. Agentes da Coordenadoria de Segurança e Inteligência (CSI) do MPRJ foram às ruas para cumprir mandados de busca e apreensão. Os alvos estavam espalhados por endereços no centro do Rio de Janeiro e em bairros das zonas sul e oeste, como Botafogo, Freguesia e Barra da Tijuca. Por conta da capilaridade do grupo criminoso, as buscas se estenderam para o Paraná e Goiás, estados onde as polícias locais e os respectivos Ministérios Públicos prestaram apoio para garantir a apreensão de documentos e equipamentos eletrônicos ligados aos investigados.
